Quinta-feira, Março 31, 2005

Brother, me dá um som.

Brother, me dá um som.

Ante ontem, terça-feira fui ao shopping assistir Reencarnação. Cheguei antes de Cris e aproveitei pra ir tirar um 3 x 4 pra minha carteira de estudante.Foto 3 x 4 é uma coisa interessante.Não conheço ninguém que tenha saído bem numa.Eu nunca saí bem.
No caminho do shopping fico no retrovisor do carro ensaiando a cara que vou fazer na hora da foto e pensando “desta vez vai sair bem”. Mas é impossível. O formato é pequeno e só pega um pouco abaixo do pescoço pra cima. Porém, o problema maior é a ação do bater a foto. (ou a não ação)
Sento na cadeira e faço a cara que ensaiei. O cara olha na máquina e vem pra cima de mim, pegando:
-Levante a coluna, abaixe o queixo; vire um pouco o rosto pra esquerda; segure os ombros retos; levante só um pouquinho o queixo, abaixou de mais; isso. Não respire.

FLASH.

Aí sai a foto. Eu, todo tenso, travado. Como todo mundo no 3 x 4.
Continuei andando pelo shopping e vi um corredor com fotos e textos da Bahia. Tinha fotos bonitas, outras nem tanto.Tinha uma foto aérea de salvador.Fico olhando e pensando em como a cidade é linda!Construída num espaço geográfico interessante.Numa curva.Uma ponta, que dá a entrada pruma baía.Os primeiros a chegarem aqui,holandeses ou portugueses, quando viraram aquela curva , não devem ter acreditado na visão que estavam tendo. Quando eu e Cris vimos o pôr-do-sol de Madri, pensamos “é o mais lindo do mundo”. Aí vimos o de Barcelona “não, esse é o mais lindo”. Aí depois o de Florença “caralho, esse é o mais lindo de todos”. Depois o de Veneza “PUTA QUE PARIIIIIIUUUU, é O pôr-do-sol.”.Voltamos de viagem e fui nadar no porto.Tava descendo a ladeira da barra.Tem jeito não.O daqui é imbatível.Tive que rodar o mundo pra descobrir isso.A Baía, a ilha, o mar, os barcos de pesca...Você mora em Salvador?Perca tempo não.
Tava vendo a foto da cidade e pensando “bonitinha, mas ordinária”.Nessa foto dá pra ver bem, é nítido, a quantidade de favelas ao redor dos bairros nobres.
“Quantos crimes estão acontecendo nesse exato momento, ali?” e olhava pra algum ligar da cidade.Lembrei do Poema do Beco.
Percebi que só eu olhava as fotos. Os outros olhavam as vitrines. Alguns vendedores ficavam me olhando como se eu fosse um estranho,parado, vendo e lendo os textos.
“Olha pra cá menino, vem comprar”.
Já trabalhei em loja. É uma merda!Entra no shopping de manhã e sai de noite.É outro mundo.Nada do que acontece lá fora,naquele momento, atingi aquele mundo de compras e vendas.Chegava de manhã com sol, saia de noite com chuva.Notícias Zero.Era compra, compra, compra...Mas também acontecem coisas interessantes.
Uma vez atendi uma menina de uns 22 anos.Eu com 16.Uma mulher.
-Tem calça jeans, 36.
-Temos, vou pegar alguns modelos pra você escolher.
-Obrigada, vou experimentar essa.
Ela entrou na cabine e ficou lá uns 5 minutos. Sai ela vestida com a calça, se olhando de todos os ângulos nos espelhos espalhados pela loja, fica de frente pra mim e diz:
-Ta dividindo?
Fiquei meio sem entender, mas pensei rapidamente “sou o vendedor, um profissional, ela quer minha opinião”. Fixei o olho bem naquele lugar, abaixo da cintura dela, fiz aquele olhar de estar analisando minuciosamente.
-Não, ta beleza!
-Eu to falando no cartão.
-Ahn...o...ééééé....Porra! Agora em até 10 vezes se você quiser.
Ela riu. Dei sorte de estar sozinho.

Continuei andando, tava de preto por causa do LUTO. Poucas pessoas de estavam de preto.Eu tinha imaginado uma terça como aquela, do dia em que Collor disse que o Brasil iria provar que estava com ele ao sair de verde e amarelo e todo mundo saiu de preto.Mas nada.Todos estavam preocupados com a final do BBB.
“Porra de salário de deputados”
Assistir o filme.Gostei muito.Tem boas cenas como a que ela assiste a uma orquestra , mas a câmera fica só no rosto dela. Mostrando o semblante dela após um acontecimento e suas reações. Fui dormir na casa de Cris.Deixei meu carro na rua.Tinha umas pessoas catando lixo.Um menininho veio até mim.
-Tio, me dá um trocado.Dei R$0,30.

Pego no sono rapidamente e sou acordado com fogos de artifícios e gente gritando.
“Jean ganhou, minha porra!!!!”.Um outro fez “Bora baêêêêêêêêêêêa” de uns 10 segundos. E mais bombas explodindo e gente gritando.

“É TETRA, É TETRA”.

Quando tento voltar a dormir o interfone toca.
-Cury, o porteiro do prédio disse pra você descer que arrombaram seu carro.
“PQP, meu som, minha mochila, meus 5 dvd´s do “antóloge” dos Beatles”.
Só levaram o som.Não deu tempo, pois o porteiro deu grito de “PEGA” que fez os 3 pivetinhos saírem correndo.O vidro do motorista foi totalmente quebrado.Me cortei todo.Pior que o prejuízo financeiro é o transtorno de ter que ir numa delegacia fazer ocorrência.Fui no dia seguinte, ontem de manhã.Só fiz porque o seguro cobre o vidro e pede uma ocorrência.
Entrei e ninguém diz nada.10:20.Uma TV ligada, 3 computadores.Só um ligado com uma pessoa sendo atendida.
-Bom dia, pra fazer uma ocorrência é...
-Onde foi o acontecido?
-Pituba.
-Onde na Pituba?(bem impaciente)
-Na rua Piauí, do lado da Lagoa.5 passos ao lado da barraquinha de seu Zenílton.
Fiquei olhando no olho dele. Sério.
-Sente ali e aguarde um pouco. Fiquei em pé.
Entrou mais 3 pessoas, perguntaram o mesmo que eu, receberam as mesmas respostas, só que elas foram roubadas em lugares que não fazem parte dos “cuidados” da sétima delegacia.
-Isso é em outra delegacia, minha senhora, né aqui não.
Falam isso rispidamente, quase agredindo. Sou atendido às 11:55 por um cara que parecia não saber nem ler e escrever quanto mais digitar num teclado.Ainda ficou tentando falar meu sobrenome:
-Orenstein
-Como?
-O-R-E-N-S-T-E-I-N
Aí ele repetiu umas 5 vezes e perguntou se era americano?
-Polonês.
De onde?
-ALEMÃO.
-Ah, tá.
Inda fez uma piadinha perguntando se eu era parente do Frankstein.
Antes de ele terminar de catar o milho começou o BA TV.
“Boa Tarde, o Baiano Jean é o campeão...” O cara largou o computador e foi pra frente da TV.Não agüentei.
-Oh meu senhor, eu tô com pressa.
-Pô , é o Big Brother. Fez uma cara de como se estivesse me avisando “oxente, venha ver também”. Mostrou uma cena de uma multidão aglomerada esperando o anuncio de Pedro Bial. Ninguém de preto.Todos com camisas com frases pró-Jean.
Ele voltou, terminou de escrever o texto que quando eu li não entendi nada. Deixa pra lá.Ainda tive que esperar 20 minutos por uma assinatura da delegada.
Penso que Jean devia pagar meu som.O cara é baiano e milionário. Um sonzinho de 300 reais pra ele não vai fazer falta nenhuma.

Terça-feira, Março 29, 2005

Nadar é preciso.

Às vezes me perguntam pra que eu nado tanto.
-Como você pode fazer uma travessia e ficar nadando durante 3 horas seguidas, sem parar?
-É que às vezes preciso de um tempo pra pensar.
Eu nado quase todo dia. É muito raro um dia em que eu não nade.Nado em média 3.500 metros por dia, sendo que quando tem competições essa média sobe pra 5.000 metros e quando é a travessia Mar Grande –Salvador, chego a nadar, nos 3 meses anteriores a competição, cerca de 7.500 metros por dia.Tem gente que nada mais.
Desde pequeno ouço dizer que natação é o melhor esporte, pois mexe com todos os músculos. Mas é mais que isso. Ela mexe com a cabeça.É só você com você.Silencio total.Só sua respiração.
Quando nado no mar é melhor ainda. Puta que pariu, é sensacional! Nadar beirando a baía de todos os santos, diversos peixes no lá no fundo. Geralmente vamos em 6, sempre os mesmos. Toda segunda.O problema é a poluição.As vezes me bato em sacos, do nada, susto da porra.
Teve um dia que estava eu e um amigo e passamos por uns barcos de pesca. Cheiro de peixe.
-Esse cheiro de peixe é foda, pode atrair peixe grande.
Assim... todo mundo sabe que não tem tubarão por aqui, que é uma coisa muito rara, muito mesmo...o ecossistema da baía favorece a isso, mas o medo sempre existe...você se imagina olhando de cima, se “vê” onde está e não tem como não pensar que a qualquer momento pode sentir uma fisgada.É meio aterrorizante.
Pois então voltamos a nadar e eu fiquei com essa frase dele na cabeça, pensando em tubarão, cheiro de peixe morto, deve ter sangue no mar. AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH. PUTA QUE PARIU, senti uma coisa no meu pé, saí nadando feito um louco, se tivesse alguém marcando, com certeza comprovaria que eu bati o recorde dos 100metros livre.Foi a mão de Quinho.Eu tava nadando, pensando em tudo aquilo e no exato momento , ele trisca a unha em meu pé.Porra!
Uma vez estávamos treinando para a Mar Grande –Salvador e resolvemos ir do Porto da Barra até o farol de Humaitá.8 km.Atravessaríamos a baía toda.Vitória, Gamboa, Marina, Cidade Baixa , até a ponta.
Fomos indo, sem barco, ninguém parou, na cara e coragem. Passamos há 50 metros de um ferry.Medo da porra.Depois por um cargueiro.Já chegando veio um barquinho da capitania dos portos.Eu parei:
-O capitão do navio mandou um recado pelo rádio mandando alguém vim ver o q que está acontecendo. Foi algum naufrágio?
-Não, estamos nadando mesmo.
-Como assim?
-Treinando.
O cara bateu continência fazendo uma cara de “vá lá maluco, se jogue” e se foi. Chegamos na areia.Meu Deus, que loucura da porra! Todo mundo assado, sem um real, morrendo de sede.
Fomos andando, sem saber como voltar, éramos 7caras, caras de mortos de fome, só de sunga, nenhum táxi iria fazer a corrida.
Passou um velhinho. Tava num gol mais velho que ele.
-Hei meu tio, peraê.
Saímos correndo.
-Sete homens???? Não, não pode... se a Set me parar eu to ferrado.
-Ah, que nada meu tio, libera aí, agente veio nadando lá de longe, não temos como voltar pra casa...
-Você cobra bandeira 2.
-Tamo com sede, desidratados...
Fomos entrando no carro. Os 7.Sedex foi sentado no chão, atrás do banco do carona.No banco de trás , Gil, com as pernas em Sedex, Emerson, Armandinho, Vianna e Eu .Na frente Davi e Rafinha.
A gente invadindo o táxi e meu tio “peraê, não entrem não, a Set vai parar... Pronto meu Tio, vamos nessa. Porto da Barra.
-Porto da Barra? Não, é muito longe.
Ele era bem engraçado, falava de uma maneira bem engraçada, rapidinha, meio fanho, voz fina. Bigodinho.E sempre que ele falava que não dava pra levar, a Set...a gente caia na gargalhada.Aí ele pirava.
-Vou parar o carro.
Teve uma hora que no meio de uma confusão de meu tio pirado, com risadas da galera, alguém gritou:
-Vou acender um hein?!
Pronto, meu tio parou o carro, encostou, disse que assim não dava e blá blá blá...chegamos até o Porto da Barra.Meu tio já tava rindo com a gente.
Fiquei pensando que sorte a nossa.Diversas vezes já tentei pegar táxi, de roupa normal, 5 pessoas e não consigo.
Estávamos lá longe, cansados, de sunga, sem dinheiro.
“Nenhum táxi vai leva a gente, tem que ser dois” e do nada, numa rua deserta, aparece dobrando a esquina um velhinho que levaria a gente.
Um velhinho. Quem será aquele velhinho???
Teve uma vez que fui competir na piscina. Ia nadar 200medley. Levei minha namorada pra ver.Cheguei atrasado.Na hora que estava entrando no clube ouvi minha voz sendo chamada.Minha prova já era a próxima.Saí correndo, tirando bermuda, camisa, pegando óculos, touca, correndo, subi no bloco, as suas marcas, PÈÈÈMMMM.
Cai na água e minha sunga caiu junto. Na pressa esqueci de amarrar a sunga.Ela foi parar no joelho.Não tive como continuar.Tava lotado.Todo mundo viu.Gargalhadas geral.Sai dizendo que queria tentar nadar com três pernas.Na prova seguinte que eu ia nadar o locutor das provas falou no microfone:
-Raia 4, Ricardo Cury.Amarra a sunga viu , amigo.
Nado sempre no horário que dá.Às vezes é 5 da matina, às vezes é meio dia e às vezes de noite.
E sempre encontro uma senhora de uns 60 anos, que se entope de hipoglos no rosto, que também nada.
-O que é isso no seu braço?
-Uma tatuagem.
-Mas o que significa?
-Ah, é uma imagem dos Beatles. A capa de um disco.Help.
-AAAHHHH, tem um menino que nada aqui, que tem uma tatuagem igualzinha a sua.
PERAÊ. Um menino que nada no mesmo lugar que eu, que eu nunca vi, tem uma tatuagem igual a minha? Dos Beatles???
Achei estranho.Não porque ela é única, mas porque se existisse essa tal pessoa, com tantas características próximas a mim, eu teria visto ele e saberia da existência dele pelos diversos alunos da natação de lá.
-Será mesmo? Igualzinha? Será que não é parecida?
-Nããããããão, igualzinha.É só você que pode ter, é?
Fui nadar.Viajei, voltei depois de 40 dias,
-Oi, ó, um dia encontrei o menino que tem uma tatuagem igual a sua e ele disse que achava que eu tava enganada, que devia ser parecida.Perguntei a ele “só você que pode ter essa tatuagem , é?”
-Foi mesmo?!
-Foi...a gente encontra cada um , né?
-Com certeza minha senhora.

Segunda-feira, Março 21, 2005

Nós viemos aqui pra beber ou pra BBB

A burguesia é meio burra. Muito burra!Talvez ela seja a quem mais precise de educação nesse país. Falo isso porque também sou um , convivo e faço parte do mesmo espaço geográfico que outros. Durante todo o carnaval me asilei na Praia do Forte.Relaxadaço.Levei minha bicicleta e todo dia ia dar uma pedalada.Fazia sempre o percurso PF-Mirante, de vez em quando ia até Imbassay.Sempre com um disc man.Rock. Diversas vezes pego a estrada, tanto pela linha verde como pela ida pra Chapada.E a sensação de estar numa estrada sem ser dentro de um carro é muito estranha.Até assustadora. Um caminhão passou por mim e quase que eu vou só pela força do vento que ele faz.Vejo urubus mortos no chão.Cruzes com epitáfios de duas pessoas da mesma família.Coisas que a gente passa despercebido quando está do lado de dentro.
A linha verde é linda, o asfalto, a vista, mas indo de bicicleta é triste. É imunda, a classe A dessa sociedade deixa pela estrada, nas ribanceirinhas, milhares e milhares de garrafas de água mineral, maços de cigarro, o que denuncia ser a classe A, pois os cigarros eram em sua maioria Malboro, Carlton, Jonh Player, Parliament, pacotes de salgadinho, biscoitos, saquinhos de lixo de carro com tudo isso dentro...é pela pista toda, quando for lá, solte do carro e dê uma olhada.
Na entrada da Praia do Forte também é assim.Tudo no cantinho.A classe alta nunca mostra seu lixo.
Toda segunda feira o treino da natação é no mar.Geralmente fazemos o percurso Porto-Mahi Mahi-Porto. Tem dias que é fantástico.Uma piscina.Um aquário.Lindo!Quando pegamos a maré contra, seja na ida ou na volta, vamos colado na margem, pois a correnteza é mais fraca.Colados nos melhores e mais caros prédio da cidade.Que povinho mal educado essa classe A.Os cais particulares deles, onde pegam suas lanchas, é um depósito de garrafas e latas de cerveja.Igualzinho a embaixo do bar Mahi Mahi.BURROS!!!
Domingo de noite , inda tava meio de ressaca devido a um casamento de um amigo.Queria ir pro cinema mas Cris, também de ressaca, não queria.Fui só.Assisti Robôs.É historia be-a-bá, o bem vence o mau, é pra criança, mas tem referencias bem interessantes com o nazismo, desrespeito aos idosos, diferenças entre pessoas, sociedade consumista, além de ter uma animação divertida, com piadas bestas que fazem rir.
Na saída encontrei um grupo de amigos que estavam no bar Ponte Aérea, publico classe A.Estavam numa mesa ao lado de uma dos vários televisores espalhados pelos bares de lá. Tava passando Fantástico.Todo mundo conversando, bebendo, rindo, aparecendo, os garçons doidos, pra lá e pra cá.Eu , de ressaca, tava de maresia e fiquei vendo o Fantástico.Sem som.Vi os gols, formula 1, e vi também reportagem sobre aumento de salários de deputados e a burguesia comendo, rindo, bebendo...reportagem sobre seqüestro de menina de 2 anos e a burguesia comendo, rindo, bebendo...um brasileiro condenado a morte na Indonésia e a burguesia comendo, rindo, bebendo...caos nos hospitais públicos e a burguesia comendo, rindo, bebendo...
Até que começou o BBB.
Meu Deus, o mundo parou, as conversas pararam, os garçons de todos os bares parados, as pessoas pararam de pedir bebida, todo mundo hipnotizado.
Pensei em pedir alguma coisa pra ver a reação do garçom.Ele mandou outro no lugar que deu pra ler no lábio:
-Não, ele chamou você. To vendo o Big Brother, ele chamou você.
Pedi uma água. Foi a vez que fui atendido mais rápido em toda a minha vida.O cara foi voando.
Pink votou em Jean.
A burguesia se uniu, junta clamou por justiça:
-Né possível, como é que pode?
-E agora??!!
-Fudeu tudo.
-Não to acreditando no que to vendo, meu Deeeeusss, e agora?
Quem não tava acreditando era eu.
Educação já pra esse tipo de gente.

Sábado, Março 19, 2005

Madri é um sonho Real.

Chegamos em Madri.Dia ensolarado e fomos para a Praça do Sol por indicação de amigos procurar alguma lugar pra ficar.Vários prédios antigos em que cada andar é uma pousada. Nós tivemos a brilhante idéia de um ficar com as mochilas em algum lugar, de preferência numa lanchonete, enquanto o outro ia livremente, sem peso nas costas, rodar o local em busca de um quarto. Cada mochila pesava 15 kg. Cris ia, rodava 20 minutos e voltava com os preços. Depois minha vez e por fim comparávamos e chegávamos no melhor. Achamos um muito bom que por fora bem antigo e a primeira impressão é sempre péssima, ranço dos nossos prédios antigos, sujos e mal cuidados de Salvador.
Pego o roteiro cultural da cidade:
-Porra, vai ter jogo do Real Madri um dia depois da gente ter ido embora.
-Poxa, que peninha!- disse Cris irônica.
-Mas deve ser uns 20 euros pra entrar...nem ia dar.
Na verdade, não fiquei muito chateado, pois a viagem era de baixo custo e sempre soube que um ingresso de um jogo lá custava um absurdo de caro e que pra comprar tinha que ser com meses de antecedencia. Fiquei me consolando com isso.
Vi alguns bares que tinham jazz todos os dias.
-Vai ter Moreno Veloso.
-Quem?
-Moreno Veloso. Filho de Caê.
-E é bom?
-Nunca vi um show, mas já ouvi algumas coisas, se for com a banda toda vou querer ir.

Madri é linda! Enorme. Toda arborizada, a mais da Europa. Passamos pelo Palácio Real e os seus jardins.Tava fechado para visitas, só no dia seguinte.
Dia seguinte não ia dar, pois não queríamos perder o desconto no Museu do Prado. Depois do museu, aproveitamos e fomos andando pelas principais avenidas de Madri.
Cada pracinha no meio da avenida tem um monumento megalomaníaco. Fomos para o Parque Del Retiro, que fica nessa mesma avenida, também gigante.Tem um lago com vários barquinhos a remo para serem alugados.Alugamos um.Enquanto estávamos remando , ouvimos uns tambores que viam de trás de um mega monumento que ficava na margem desse lago.
-Deve ta tendo algum evento cultural...
-Será que é o Olodum?
Fomos ver e tinha mais de 1000 adolescentes tocando todos os tipos de instrumentos percussivos, sem nenhuma ordem musical.
Um ficava lá tocando, aí parava, ia comprar uma cerveja, ou dançar e outro entrava no lugar dele. Gente do mundo inteiro. Muitos com camisa verde amarela.
Os que vendem cerveja são marroquinos. Percebo que também vendem outra coisa.
-O que é?
-Haxixe
-Quanto?
-10 Euros.
Voltamos pra Praça do Sol.
Ficamos sabendo que o show de Moreno é com a banda toda. E que o teatro era do lado do nosso hotel. As ruas entupidas de gente, penso que “isso sim é turismo”, não Salvador ,que recebe todos os turistas de uma só vez durante o carnaval e depois num vai mais ninguém.
No meio dessa multidão, pra lá e pra cá, vejo Moreno , passando por mim, indo fazer o show.Vamos nessa!
O show foi sensacional. Moreno, Domenico e Kassin + um guitarrista fabuloso e um baterista mais ainda.

Acordamos cedo para irmos para Toledo, cidade próxima , 1 h de trem.Pegamos o trem em Atocha,local do atentado.Estavam reconstruindo.Deixamos nossas mensagens nos painéis.Toledo.10°.Outra cidade em que tudo é gigante...em nenhuma das nossas fotos da pra ver tudo, os castelos, igrejas, catedrais...tudo enorme, a lente de nossa máquina, amadora, velhinha e analógica, ou captava a gente e um paredão atrás, ou íamos pra longe, ficávamos pequenininhos com uma igreja láááá no fundo. Éramos os únicos da Europa sem maquina digital.E também tínhamos um probleminha: como só éramos nós dois, ou eu aparecia na foto, ou Cris...ás vezes pedíamos pra alguém bater...algum japonês que estivesse por perto,ele olhava pra máquina e pensava “que treco é esse?”
Essa ida pra Toledo fez a gente perder a hora pra comprar a passagem de ônibus que nos levaria até Sevilla.
-A gente fica mais um dia aqui, aproveita e vai no Palácio Real e da uma volta pela cidade naqueles ônibus pra turista.
-Ok
O palácio Real de Madri é surreal. Além de estar tendo uma exposição itinerária de jóias egípcias, tem a parte do próprio palácio, que é inacreditável! Os quartos, os lustres, as salas , os móveis, as esculturas...nada se repete, nada é igual e tudo é fantástico, tudo tem milhões de detalhes...pra que você veja cada detalhe é preciso ficar mais de um dia em cada aposento.E mais surreal que o palácio é o museu de armas do rei.Com armaduras, lanças, armas antigas de fogo,escudos, armaduras dos cavalos, as armaduras de treinamentos dos filhos de Felipe.Não terei palavras para descrever os detalhes dessas peças.
Ficamos rodando pelo palácio e se Sir McCartney fumou maconha no Palácio Real de Londres, posso dizer que dei uns tapinhas no haxixe no Palácio Real de Madri.

Ainda tínhamos uma tarde inteira em Madri. Nosso ônibus pra Sevilla só sairia uma da manhã.
Fomos passear e pegamos o ônibus de turista. Ele roda a cidade toda e você pode descer e subir em outro quantas vezes quiser.Tem o andar de cima que é aberto e cada cadeira vem com um fone de ouvido com uns botões para a seleção da língua.
Tinha em Português. O único da Europa.
Era tudo sincronizado, se passássemos pelo Palácio das Comunicações era:
“No seu lado esquerdo, temos o Palácio das Comunicações, que foi construído no governo de não sei quem...”.
O problema é que tem tanta árvore em Madri que às vezes a voz dizia: “logo a sua direita temos o ministério da cultura...”, eu olhava e só via uma árvore enorme.
Já no finzinho da tarde passamos pelo estádio do Real Madri, o Santiago Bernabeu.
Fico olhando pro estádio, as ruas movimentadas, mas nem tanto, e vejo por todo o estádio vários painéis piscando: “Hoje Real Madri x Dínamo Kiev. 20:45”. Leio isso e não me abalo. Na mesma hora Cris fala:
-Vai ter jogo hoje!!
Essa fala de Cris, misturada com a visão dos painéis “Hoje.Real Madri x Dínamo Kiev. 20:45” ficou no meu pensamento uns segundos que pareceram uma eternidade.
“Jogo Hoje, Real Madri.Hoje.Aqui em Madri.E eu estou aqui.Jogo. “Hoje.Real Madri x Dínamo Kiev. 20:45”.
Na verdade meu cérebro não estava aceitando aquela mensagem. Ou não tava acreditando.
-Porraaaa Cris....Vamos soltar e ver quanto é?
-Ah não. Vim pra Europa pra ver futebol não.
- Por favor , Cris, eu faço o que você quiser daqui pra frente.
-Não, não e não.
-A gente vai onde você quiser ir, tome o mapa, é seu de agora em diante, você comanda...por favor, vamos, vamos,vamos...
-Perai, vamos ver quanto é, se for 20 euros por pessoa eu não vou pagar. Nem você.
Eu tinha dito a ela que achava que os ingressos custavam 20 euros.
Saímos do ônibus, atravessei a rua com Cris no meu ouvido “se for 20 euros a gente não vai, é um absurdo...um jogo de futebol e blá, blá, blá.”
Eu tinha certeza que era mais de 20 euros e que não iria encontrar mais ingresso, até porque o jogo começaria em duas horas.
“Pelo menos tiro uma foto com o placar “Hoje.Real Madri x Dínamo Kiev. 20:45”
-Ainda tien ingresso?- perguntei pra balconista.
-Tiemos.
Frio na barriga.
-Quanto custa o menor preço?
-12 euros.
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL.
Apesar de eu ter prevenido que o preço poderia ser 20 euros, o que fez 12 euros parecer muito barato, 12 euros ainda era caro pro nosso nível de viagem e Cris ainda não estava convencida.
-Poxa Cris, imagine...Ronalo, Raul, Figo..
-E daí?
- Zidane, Roberto Carlos, Owen...
-E eu com isso?
-Beckham...
-Ah é, ele joga no Real Madri?
-CLARO que joga...Beckham, titular absoluto, diga aí?
Ela pensou um pouco.
-Hum, grandes merdas..., mas o mapa agora é meu.
Pela organização da cidade, deu tempo de pegar o metrô , ir pro hotel, tomar banho, comer e voltar pro estádio.
Chegamos 1 hora antes. Portão ainda fechado. Pouca gente no estádio.Sou o primeirão da fila.
O time do Real chega num ônibus escoltado pela cavalaria de Madri, todos fardados, inclusive os cavalos, com bandeiras e cores do time. Os torcedores ovacionam.
Entramos, fomos subindo e subindo e subindo e subindo e subindo e subindo ...o estádio é quase 90°, alto demais e nossos lugares era lá em cima. Pegamos nossos lugares, tudo marcado, compramos uma cervejinha e ficamos esperando.
Pouquíssima gente no estádio.
“Será que é jogo de Juniores? Se for, nem vou comentar com Cris”.
O lugar é marcado e todo mundo respeita.As pessoas só entram na hora do jogo, “inda por cima lá fora a cerva é mais barata”, me explicou um madrilenho.
O estádio é impecável. Parece que eu estava dentro de um Playstation. A cor da grama é igual ao da tela do vídeo game.O telão mostra a escalação dos jogadores, com as fotos e o esquema tático de cada time.
-Beckham não vai jogar??????- gritou Cris ao ver a escalação do Real.
Me fudi!
O real entra em campo pra aquecer.
“Meu Deus, são os caras.”
Apesar da altura de onde estávamos, reconhecia claramente Ronaldo, Roberto Carlos, Zidane, Raul, Figo, Owen...todos se aquecendo, batendo pontinho, brincando de bobinho.
5 minutos antes do inicio, o estádio enche. A torcida começa a cantar e não pára mais. Nem pra comemorar o gol de Owen com passe de Ronaldo que por duas vezes fez a torcida cair na gargalhada por ter recebido a bola nas bolas. Em cada pilastra um televisor mostrando o jogo, todos os ângulos...fico assistindo lá de cima e PUTAQUE PARIU, parece um balé clássico dentro de um teatro...tudo sincronizado.Os jogadores dançam em conjunto no campo. Zidane é o "Barischinicov". Ele comanda.
Eu ficava torcendo pro Real:
-Vai , corre, toca pra Zidane...
“Peraê, eu falei toca pra Zidane...é Zidane ali?”
Cris se amarrou no jogo, adorou o estádio:
- O Barradão é assim também?- perguntou ao sairmos do estádio.
-Hein?
- O Barradão é assim também?- repetiu ela.
-Que horas é o ônibus pra Sevilla mesmo?- respondi.

A verdadeira guitarra baiana.

Tocar um instrumento é bom, certo?
Tocar bem um instrumento é melhor ainda.
Tocar pra caralho é fantástico e ás vezes a gente vê alguém tocando pra caralho e pergunta “Como esse cara consegue fazer isso? Como ele consegue tocar dessa forma? Como ele decora onde os dedos devem ir?”
Agora imagine alguém que você já acha inacreditável, que toca pra caralho, sofrer um acidente, perder massa encefálica, ficar em coma, cadeira de rodas e ainda assim voltar a tocar da mesma forma.
Eu estava trabalhando numa produtora de eventos que cuidava de toda estrutura do camarote da VIVO nos shows de Margareth Menezes e Araketu durante o verão de 2005. Lá vi de tudo.Tinha acesso total.E teve um dia que foi Paralamas.
Pensei que tenho que falar com ele. Não pra ser tiete, mas só pra olhar nos olhos, apertar a mão dele. O segurança barrou dizendo que o show já ia começar e que ele minutos antes do show gostava de fica sozinho, nem mesmo Barone e Bi.Ok.
O espaço era no clube do Bahia , mais uma vez Salvador armengando locais pra fazer shows, e lá não tinha uma boa estrutura de camarim..era um quartinho nos fundos.Quando o segurança me disse isso, fiquei encostado na parede desse quartinho, esperando ele sair pra poder falar com ele.
As cortinas estavam fechadas, mas a janela estava aberta e então , surpreso, comecei a ouvir Hebert se aquecer, tocando sozinho, sendo eu o único ouvinte daquela hora.E o cara só tocou clássicos.Beatles “Day Tripper”, Cream “Sunshine’, Led “Mountain Hop”, Stones “Jumping jack flash”. Voz e guitarra desligada.Só ouvia os crac crac das cordas.Lindo! Fiquei ali, cantando baixinho , junto com ele.Não consegui segurar as lágrimas.Nem precisei mais falar com ele.Ele já tinha falado comigo.
Ontem fiquei pensando nisso ao ver Morotó tocando. Falei com Dóris, mulher dele ,que ela devia ser uma das pessoas mais felizes de Salvador, pois todo dia ela pode ouvir a genialidade desse ser.
-E quando não é guitarra é bandolim, acordeom, cavaquinho, gaita...
-Porra Dóris, você é então a mulher mais feliz do mundo!!!
Quando você for a um show do Retrofogutes, a banda toda é magnífica, mas ele é além.
Imagino que ele nunca toca da mesma forma as músicas...é impossível repetir o que ele acabou de fazer.
To escrevendo isso pra deixar documentado...às vezes as pessoas vão embora e a gente não tem a chance de dizer o que acha e então me senti na necessidade de gritar :
-Morotó, você é gênio, gênio, gênio...você está no mesmo patamar que, Harrison, Page, Armandinho, Hendrix...o mundo precisa de você pra ser um mundo melhor.
Viva o trio Morotó!

Calypso, Calypso ô ô

“Quem pega no balanço do Calypso não que ir embora, nunca para de dançar”
Durval Lelys.

Esse lugar devia ter um livro dedicado a ele. Relatos de pessoas que passaram por ali.O que sentiram ao ver como é aquela louca estrutura.
(quem tiver o que contar, essa é a hora)
A primeira vez que fui ao Calypso ou KY pelo aperto, foi pra ver um show do saudoso Borel com Pochat no show “Só Sucessos”. Passou um tempo e comecei a tocar lá, início de 98, com uma banda chamada Jack Road.Tocávamos mais anos 60 e 70...Janis, Doors, Beatles, Niel Young, Led Zeppelin, Mutantes...começamos às Terças, o bar era Jean, Lourdes, Sônia, uma garçonete de uns 50 anos que sabia cantar todas as de Janis Joplin e Naomi, filha de Lourdes e Jean, então com 2 anos.Lembro que Naomi ficava lá no balcão, vendo e ouvindo de tudo...de tudo mesmo!Essa nasceu no rock! Uma vez cheguei pra montar a bateria e ela tava cantando “...meu pai comprou um carro, ele se chama syncachambo...”
-De quem é essa música Naomi?
-Dos Koyotes.
-Né nada, é de uma banda chamada Camisa de Vênus.
-Né nada, é dos Koyotes.
-Não Naomi...os Koyotes tocam essa música mas quem fez...
Depois fiquei sabendo que a música é de autoria de Miguel, vocalista dos Koyotes.
Como era nas Terças e ninguém conhecia a gente, nossos shows geralmente tinham 4 pessoas: Jean, Lourdes, Sônia e Naomi. Aos poucos os amigos foram comparecendo e Jean nos promoveu às Quartas. O público foi crescendo e então fomos pras Quintas que começaram a ficar lotadas. Nesse mesmo ano, meu aniversário cairia numa Quinta, então durante um mês ficamos anunciando “na quinta feira do dia 27 de maio, é aniversário de Cury, chame quem você quiser e venha pro Calypso, não tem courvet, é free...”.No dia 27 foi a primeira vez que vi o Calypso no estado insuportável.Naquela época ainda nem tinha ar condicionado, embora hoje acredito que também não tenha, apesar daquelas duas coisas instaladas lá na parede.
Uma vez estava uma chuva forte na cidade e o bar lotado, decidimos começar então com Have you ever seen the rain, Creedance, comecei a contagem nas baquetas:
- 1 , 2 , 3 CHUÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀ
O forro do teto desabou bem na hora de começar, em cima de mim e da bateria...enxugamos o que foi possível, colocamos a bateria em frente do bar, no ladinho...tocamos com as goteiras “sintam-se em woodstock”, falou alguém quando passou pelo microfone.
Aliás, essa é uma das peculiaridades do local.A banda ta lá, tocando, aí vem alguém e grita o que quiser no microfone, no meio da música...isso graças a sua estrutura que quando contada pra alguém parece ser inconcebível “uma casa de show que pra ir no banheiro tem que atravessar o palco?”.
Músico de fora fica atônito quando ver...quero entrevistar o baixista da banda carioca Pelvs que veio tocar e só chegou na hora exata do show, com o KY entupido.Preciso saber qual foi a sensação que ele teve ao ver a cena.
O Calypso merece um estudo aprofundado do que é, da sua importância. Mas as pessoas que freqüentam o KY também.
Ontem fui assistir Retrofoguetes.200 pessoas ali dentro.Imagine 200 pessoas transpirando, bebendo e arrotando, fumando, peidando loucamente...é como estar dentro de um elevador com capacidade pra 10 pessoas só que tendo 15 e esse elevador pára e todo mundo fica preso durante 2 horas.É incrível a cara de alívio das pessoas quando saem do KY , quando abrem aquela porta e sentem o ar da noite soteropolitana. Lá você tem que escolher as músicas que mais gosta pra ouvir e as que não gosta você desce pra tomar ar.
-E , vai ter uma canja de alguém, vamo descer...
Herói é o garçom de lá...PQP, o cara passa com uma bandeja no meio de uma catarse coletiva ao som do rock´n roll, com músicos e platéia se misturando e ele vai lá e entrega sua cerveja na sua mão, estando você lá no fundo.
Herói também é o vizinho, que segundo Luciano Matos deve ser eleito o cara mais rock da cidade. E realmente é. O palco do KY fica colado com a parede do lado direito, a mesma parede dele.
Porra, o cara há 7 anos ouve o rock da cidade.Todas as bandas.
Será que ele já distingue?
-Iiiiih, hoje é brincando de deus, to fudido!!!
O Calypso é literalmente a alma rock, é o rock em forma de bar. Assim como o rock , ele já foi dado como morto diversas vezes.Já passou por saída de Jean, internação de Lourdes, guerra com a Sucom e ainda assim ele tava lá ontem, firme e forte.Reverberando com a guitarra louca-superfantástica-surreal de Morotó.
Calypso will never die.

Quinta-feira, Março 10, 2005

Diário de água.

Atravessar a Baía de Todos os Santos é uma experiência ímpar na vida de alguém.Pela terceira vez consecutiva fiz essa travessia e a cada ano aprendo algo novo.Tanto durante a prova, como depois, durante a vida.
É impressionante como o desgaste emocional é enorme. Nadar 12 Km, olhando pro nada, só água, sem ver o fundo, no silêncio, cansado, durante 3h, é de arrepiar.
Comecei a travessia no “sentido África”, junto com a maré, mirando o Cristo em Ondina, esperando pela virada que me levaria até o Porto da Barra. Logo nas primeiras braçadas, senti uma forte dor no ouvido direito, comecei a rezar pra Yemanjá para que a dor parasse. A dor parou.Sabia eu que essa virada ocorreria com uma hora após a largada. Fomos indo (eu e um barco com meu guia, que é obrigatório pra todo nadador nessa travessia) e nada da virada acontecer. Resultado: só fiz nadar uma distância maior. Se fosse em linha reta, teria dado menos braçadas e chegado mais rápido. Porém, o receio da maré enchente, junto com a minha ausência em 40 dias de treinamento entre os meses de Outubro e Novembro, me fizeram ficar cauteloso.
Como eu sabia que depois de uma hora da largada a maré iria virar, fiquei esperando sentir isso pra saber que já tinha uma hora de prova. Como não veio, pensava: "será que inda não tem uma hora de prova? Eu já tô morto e a maré não virou. É a última vez que faço essa travessia”.
Junto com esse pensamento, vem o maior inimigo do nadador: a sede. E não só pelo motivo de sentir sede e sim pelo motivo de que beber água, além de atrasar, é doloroso. Tive então a "brilhante" idéia de, ao invés de água, iria pedir gelo, assim ficava com o doce na boca. Piorou tudo. Com o gelo na boca, respirava errado e bebia muita água do mar. Fui ficando enjoado e quase vomitei. Parei pra tossir e resolvi beber o líquido.
Beber água dói! Você vem nadando há uma hora e meia, já sentindo dor em tudo, tendo a boca seca e com muito sal.
Grito pro barco: “água, água” e penso: “é a última vez que faço essa travessia”. Jogam um saquinho com água, você pára de nadar pra pegar o saquinho e A DOR AUMENTA EM 100%! Dói tudo: lombar, ombros, cabeça, braços, pernas, falange, falanginha, falangeta...O jeito é virar de costas, ficar batendo perna com o sol na cara, pensar de novo que aquela é a última travessia que faz e virar deliciosamente aquela pequena porção de H20. Depois ainda tenho que me esforçar pra jogar o saquinho pra dentro do barco.
É incrível como o efeito produzido pela água é imediato. Passo a nadar mais rápido e mais forte, na hora. Porém, sempre fica aquele gosto de quero mais e a sede quando volta, vem dobrada.
Depois de muito tempo resolvi levantar a cabeça: “terra à vista", estava perto. Ledo engano, pois ainda estava longe demais. O ângulo de visão fica totalmente desregulado.Você levanta a cabeça rapidamente e vê o Farol da Barra, mas não com tempo suficiente pra perceber com exatidão se está perto ou longe. Melhor se enganar dizendo que está perto. Pra passar o tempo, se faz de tudo: "Vou cantar agora Faroeste Caboclo, pois sei que tem mais ou menos 10 minutos e quando acabar, saberei que se passaram 10 minutos" ou "vou contar 500 braçadas e só depois levanto pra ver se estou mais perto". Fiz isso duas vezes e nada de estar mais perto, o que era desesperador. Nesse tempo se pensa em tudo: trabalho, bandas, músicas, discos, livros, promessas, família, namorada, amigos, no que tem embaixo de mim que não enxergo, se tem tubarão, nos barcos afundados, penso mais uma vez que não faço mais nunca essa travessia, penso em escrever um texto pra dizer o que estou pensando e penso até que aquele mar, aquela água em que estou nadando, pode ser a mesma que matou milhares de pessoas com o tsunami Ásia.
No barco que me acompanhava estava um grande amigo meu, Faustão (não o da TV), só olhando. E comendo uma doce e deliciosa maçã. Essa cena quase me fez desistir. Quase subo no barco pra agarrar aquela maçã."O fruto proibido”, pensei. Melhor continuar. Aos poucos fui chegando. Começar a se bater em lixo (saco, garrafas, papel, embalagens...) e ver a areia no fundo mar é o sinal que está chegando. Alívio. Andar é bom demais! Bebo tudo que me oferecem: sucos, copos e copos de água, água de côco... parece que o líquido é evaporado ainda na boca sem passar pela garganta. Continua seca até o dia seguinte.
Sinto o desgaste físico que é atravessar essa baía no braço. Porém, o desgaste é muito mais emocional, pois é a mente que controla a dor.É difícil, doloroso, árduo, cansativo, mas olho pra trás, vejo a Ilha de Itaparica onde eu estava há poucas horas, vejo o quanto nadei, vejo esse mar e digo: “vou fazer de novo”.

Quem tem boca vai a Roma.Mas é bom saber usa-la.

Roma

Chegamos em Roma num domingo, fomos prum albergue que nos foi indicado por um francês milionário que estava de bicicleta num mercado de pulgas na La Rambla, Barcelona.Disse que viajava o mundo inteiro, sempre de mochilão, pois viajar como rico é muito chato.Segundo ele, a linha hotel-carro-centro turístico-carro-hotel é muito certinha e você não conhece o que as cidades tem de melhor.Não sei o que é fazer essa viagem, mas concordo com ele.
Fomos pra esse albergue que se chama Otaviano, que fica na rua Otaviano ao lado do Vaticano.
-Where are you from?
-Brasil.
Pronto, o sorriso aparece na boca de quem pergunta.
Fomos dar uma volta.O metrô de Roma é o pior que vi, além de sujo só tem duas linhas.O bom é que era o mais fácil pra não pagar.Dava pra passar livremente.
Domingo de noite em Roma: no começo tudo é confuso, ruínas e ruínas, a cidade é um imenso museu ao ar livre e mesmo sendo domingo de noite,isso é Fantástico, as ruas estão entupidas de turistas, mas entupidas mesmo. E de Japoneses, pois não são turistas, são Japoneses, é diferente.Imagino que sendo o Japão tão pequenininho, o governo deles incentivam o turismo pra que haja uma rotatividade de pessoas em solo japonês. Em toda a Europa Só TEM JAPONES. E pombos.
Na terça feira fomos ao Vaticano.Basílica de São Pedro.Tentamos ir no museu do Vaticano, mas chegamos tarde.Eram 9 da matina e a fila já dava voltas e voltas pelo quarteirão.Vários japoneses.Comento que queria ver o Papa, Cris fica indiferente.A basílica é linda.Infinitas esculturas, obras dos maiores pintores e artistas da humanidade.A “nave” faz doer o pescoço, não da pra parar de olhar, é muita coisa.E muito Japonês.
Vamos embora.
Dia seguinte acordamos mais cedo e fomos ao museu. 12 euros pra entrar.Óh meu Deus, como lucram esses padres!O museu é enorme e a cada nova dobrada tem uma placa com uma seta “capela sistina”, você anda pra caralho, anda , anda e só vê plaquinhas de “capela sistina”, mas nunca chega.
Durante todo o percurso o museu parece uma Insinuante ou Casas Bahia: “Compre agora, hoje, é sua última chance” ...várias lojinhas com ofertas imperdíveis de réplicas de tudo que tem lá.Comprem , comprem , comprem.
Não comprei NADA. Enfim a Capela Sistina. PUTA Q PARIU. É linda, é enorme, é surreal.Lá vi o que era dor no pescoço.Vendo todas aquelas imagens que vi no meus livros de Estudos Sociais e posteriormente nos de História. Tinha uma placa na entrada “Proibido conversar e tirar fotos”. As duas coisas são impossíveis de não fazer. Primeiro que você olha pruma cena no teto e tem que comentar com alguém, sente a obrigação de dizer “ó pra aquela ali, caraaaalho”, mas tem os soldadinhos da guarda suíça que ficam toda hora fazendo “xxxxxxxxxxxhhhhhhhh” pras pessoas ficarem em silencio e quando fazem isso, todo mundo fica. Mas aos pouquinhos o burburinho vai voltando e quando começa a zuada “xxxxxxxxxxxxxxhhhhhhhhhhhhh” de novo. Teve uma hora que tava um zoadão e eu fiz “xxxxxxxxxxxhhhhhhhhhhhhhh” e todo mundo calou a boca. Saímos do museu por volta do meio dia e a fila estava ainda maior.$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$.Muitos mendigos ficam na fila pedindo esmola...uma mulher com um tumor aberto na cabeça quase fez uma americana desmaiar.Lembrei d´O Nome da Rosa.
Voltamos pro albergue e o cara de lá pergunta se vimos o papa.
-O que? O Papa apareceu hj, aqui do lado?????
A gente viajou com um livrinho bala, Fromer´s, que conta quase tudo das principais cidades européias e dizia que o Papa aparecia pros fieis, às quartas, pela manhã.Era uma quarta, mas eu não levei a sério essa parte do livro, pois era de 1999 e “o Papa ta tão doentinho, nem deve mais aparecer”.
Porra, fiquei pirado, queria ter visto o Papa. Não sou religioso, não freqüento igreja, mas o Papa , esse Papa,já é um ser histórico.É um personagem vivo e desde já histórico, é o Papa da minha época, que futuramente será estudado por diversos alunos de todo o mundo, é a história viva da igreja católica.Repito que queria ter visto o Papa, que não tava acreditando no que tinha acontecido...o papa ali, do meu lado e eu não vi.E Cris só dizendo:
-que besteira, não faço a M-e-n-o-r questão de ver o PAPA.
-mas eu faço.
-mas eu não
-ok
O motivo de termos voltado pro albergue depois do museu foi pra procurar um panfleto que nós pegamos num ponto de turismo no Vaticano, no dia anterior, que explicava como chegar as Catacumbas.Não achamos o panfleto e Cris colocou a culpa em mim:
-pois agora você vai voltar no Vaticano e vai pegar outro enquanto eu vou numa lojinha comprar alguma coisa pruma tia minha q é religiosa.
Fui indo sozinho ao Vaticano, vendo milhares de pessoas voltando, freiras, padres, madres, japoneses, cidadãos normais e pensando: “ q merdaaaaaaaaaaaa...se eu tivesse em outro lugar, outra cidade, outro bairro, tudo bem...mas tava ali do lado...”
Fui chegando no Vaticano , passei pela guarda suíça e só pra garantir resolvi perguntar:
- o Papa inda está aí?
-sim, ali (apontou pra atrás da pilastra)
Sai correndo e la embaixo vi um monte de gente de preto e uma coisinha branca, numa cadeira, dando tchau e indo embora...quando vi, ele já tava sendo empurrado , virando a cadeira...só deu pra ver um negocinho branco girando e sumindo nos “pretos”.
-porra, de novo, por uma questão de segundo...caraaaalhoooo...
Meu consciente ficava dizendo: “se conforme rapaz, vc viu...”, mas la dentro sabia que não.
Olho em volta e vejo rostos sorridentes, pessoas se beijando, se abraçando, famílias...um clima leve no ar, confortável, de repente uma mulher grita:
- o Papa ta voltando...o Papa ta voltando...
Viro pra ver e ele veio dar mais um minuto de Tchau
“é pra mim, só pode ser”
Corri, bati foto, dei tchau tb...e senti de novo aquele clima leve, pois naquele momento , todo mundo que está ali, naquele lugar, acenando, só ta pensando numa coisa: no bem.
YEAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
Volto flutuando pelas ruas e encontro Cris, pirada com minha demora.
-que demora?
-tava vendo o Papa.
-Anh, o que?
-o Papa, aquele que você foi categórica em dizer que não fazia a m-e-n-o-r questão de ver.tava lá ainda.
Conto a história pra ela que fica pasma.
-poxa, tb queria ter visto.
É baby, a força da palavra tem poder... talvez no Vaticano mais ainda.
Na noite fomos num barzinho bala, na placa dizia “hoje, jazz”.Mas nada, era só Bossa Nova.Tinha uma banda: guitarra, baixo e bateria e uma menina cantando.Só Bossa.A menina cantava português com sotaque...dão intervalo, vou conversar com eles, falo de onde sou e a menina diz que é italiana, mas que “morou” um mês no Brasil, numa cidade chamada Salvador.
-sou de lá
-voce ta brrrincando?
-serio, sou de lá, nasci lá.
"Salvador ta botando pra fuder na Itália"
Ficamos conversando, falei que tocava bateria e no meio do segundo set, me chamam pra tocar.Sento na bateria e toco Chega de Saudade.
Cheio de saudade.

Sexta-feira, Março 04, 2005

Notícia de um sequestro.

Acabou o ensaio de terça feira , 17/12/2002, 10 da noite:
- vou nessa, falei.
-man, to de moto, bote minha guitar no seu carro, no próximo ensaio eu pego.Pediu Vieira.
-ok, Nêgo, quer que eu leve seu baixo também?
-Nada, meu baixo agora fica 100% comigo. O Nêgo disse isso por que tinha acabado de comprar um Fender, pois fora roubado há uma semana.
Fui pra casa.
Noite seguinte.Vou buscar minha então namorada, Tais, pra ir pra algum lugar.Paro na frente do prédio eespero ela descer.Fico lá, ouvindo música, uns 5 minutos.
Ela desce, entra no carro, fecha a porta, olho pra ela e digo:
-vamos pra onde?
-não sei, vamo indo que tenho que passar na farmácia, no caminho a gen...ai meu Deus(trêmula)
Quando olhei pra frente tinham dois caras , um em cada porta, o do meu lado com uma arma disse bem suavemente:
­- passe pro banco de trás agora , não faça nada (ai, meu Deus)
Pensei em : não olhe pra ele pra não pensar que você está marcando o rosto;avise tudo que for fazer, por mais banal que seja; e ele está no comando, obedeça.
Nesse momento passa uma infinidade de coisas na cabeça e uma coisa boa é que vieram estes conselhos de como se comportar numa hora dessa...nesses milionésimos de segundo, conseguir absolver a notícia e pensar no que fazer, pra sair ileso de uma situação que poderei morrer.
-Calma, fique tranqüilo, to passando pro banco de trás.
Eu e Tais ficamos atrás, ela do lado do motorista ,eu do passageiro.
- ai meu Deus
Segurei a mão dela e disse:
-Calma Tatai, tudo vai dar certo. (essa cena holywoodiana é verídica)
-cadê a carteira, dos dois...ó , é só cooperar que ninguém vai sair ferido, disse o da minha frente.
-Se abaixem, não levantem a cabeça
- ninguém aqui quer matar ninguém e você fique tranqüilo que também não tamo interessado em sua mulher, só queremos o dinheiro.
O fato deles terem dito isso, foi fundamental pra que eu “mantivesse a calma” e por todo momento conseguir um diálogo sem nervos pra nenhum lado.
-a gente só quer fugir, que a gente não é daqui não e se metemos numa merda...
Tudo história, pois pensam que assim vão despistar a polícia numa possível queixa.
-Cadê a carteira?
Pegaram as duas carteiras, relógios e celulares.
-A gente vai passar no caixa eletrônico, sacar o dinheiro e só.
-Moço, meu cartão do banco eu recebi hoje, ainda nem desbloquiei, nem lembro se tenho a senha (ficou confusa).
Foi aí que vi que aquilo que vemos nos filmes e desenhos animados é a mais pura verdade.Uma dupla de bandidos, um é inteligente e o outro é o ignorante.
-Fique tronquila que a gente faz você se lembrar da senha rapidinho, rindo e mostrando o revolver.
-Não moço, é que eu recebi...
-Calma, disse o inteligente. Você desbloqueia agora e faz a senha.
Esse saca da coisa, pensei.
Paramos naquele do Iguatemi que nem sai do carro.Tais tinha depositado 400,00 reais, que já estavam disponíveis.
Sai do carro ela e o burro. Olho pro lado e vejo um cara do meu lado, em pé, fazendo fila pra ser o próximo. Com certeza ele percebeu...meu vidro não tinha película nenhuma, o cara me vendo de cabeça baixa, posição quase fetal, com um cara na frente, a porta do motorista aberta , com uma menina e outro na frente do caixa, 10:00 da noite.
Na hora rezei pra esse cara não reagir ou mostrar que ta percebendo alguma coisa...uma situação de desespero, pra qualquer lado, era o que eu menos queria. Fiquei pensando no cara mostrar que percebeu e ter que entrar nessa, os caras matarem ele, mudar a “paz” que estava.
Entraram no carro, desbloquiaram mas a comunicação na hora do saque deu problema.Vamos pra outro banco.Cabeça baixa.
-O carro não tem fumê não véi?
(me fudi, pensei)-Não.
-Nenhuma.
O burro acha na lateral da porta um óculos escuro.
-Póóóóóóórra, que lupa bala! Colocou a lupa, tirou, olhou pra marca e disse:
- Que marca é essa?
-Okley.
-Ocliu?

-A marca é o que?
-Como assim?
-Qual é o desenho da marca, é essa bolinha aqui?
-Ô véi, essas perguntas idiotas que essa merda fazer, não precisa responder não.De uma hora pra outra o inteligente se retou.
-Vou levar não, se não os caras vão dizer que eu roubei, disse o Burro.
PODE?
Na hora dei uma leve risada no pensamento.
-Quanto você tem?
-Uns 500,00 reais, disse Tais.
E você?
- Olhe só, eu tirei uma grana ontem...
- Tem quanto man?
- 40 reais( VERGONHA DA PORRA, TAVA FAZENDO UMA SEMANA DE NAMORO)
-Quanto? Gritou o burro.
Quando comecei a tentar explicar e jurar que tava falando a verdade o inteligente sabiamente disse:
-Man, a gente tira o extrato e pronto, se só tiver 40, é 40, pronto.
Porra ,na hora pensei que bom que seria se todos os ladrões fossem +- assim.
Tais tira uma parte, pois estava tarde e o banco tem um limite diário de segurança.
Disseram que tiravam mais tarde.
Fudeu, vamos ficar com eles por um bom tempo.
Paramos num 24h, no posto do lado do Bom preço da Garibaldi.
Salto.
­-Se correr, ela morre.
-Relaxe.
Tiro os vergonhosos 40.
Saímos em disparada, o cara do nada, começa a cantar pneu, acelerar e toma bronca do Inteligente.
Passou por um buraco e a caixa da bateria chiou.
Inteligente:Tem o que aí atrás?
Eu:ah, uma bateria.
Burro: o que?
EU: uma bateria.
Burro:como assim?
Eu: um instrumento de música, pra tocar.
Burro:Como é uma bateria?
Eu: Bateria de bater, tum pá, tum tum pá.
Burro: Como assim?
Eu : TAMBOR, uns tambores.
Burro: Ahhh, você toca , é?
Inteligente: Toca onde, o que?
Eu: Toco bateria, numa banda de rock.
A frase “ta no rock é pra sofrer” veio a minha cabeça.
Eu não tava acreditando nesse diálogo.
Inteligente: um dia agente vai te ver na televisão e vou dizer pros companheiros:
“ já levei esse aí”
Paramos no posto de gasolina do entroncamento da “coca –cola”.
-Finjam que tão dormindo.
- Ahn? Eu e Tais na mesma hora.
-Fijam que tão dormindo.
Ficamos lá, os dois com a cabeça virada pra trás, de olho fechado. PUTA QUE PARIU, que antas, que cena ridícula... qualquer um poderia ter percebido que era um sequestro, o frentista, alguém de outro carro, pensei em algum amigo meu ou parente reconhecer meu carro...de novo rezei pra que ninguém demonstrasse alguma coisa.
Ficamos um bom tempo lá, “dormindo”.
-Vamos deixar vocês, se liguem, vamos ficar com seu celular, não dêem queixa...se a gente conseguir sacar a grana a gente devolve o carro intacto, você pega ele amanha mermo.
- a gente nem vai tirar o som, falou o Burro.
- 6 horas, não 6:30 ligue pro seu celular que vou dizer onde ta o carro.
Não tava acreditando, já ia ser liberado e ainda fui informado que receberia meu carro rapidinho.
Parou o carro e quando íamos abrir a porta, passou um carro da polícia.

- Fecha, fecha...sai daqui...falou pro motorista.
CARALHO, a polícia tinha que atrapalhar...mas nessa hora tive muito medo dela perceber e ir atrás da gente...pensei em troca de tiros , reféns...porra, logo no finzinho.Mas nada aconteceu.Fomos liberados ali na Rua do Canal. Nos demos um abraço longo, alívio.Casa. Decidimos não dar queixa, de nada adiantaria.
6 da manha ligo pro meu celular:
-Alô , um deles atende.
- ô véi , sou eu, do carro.
Susurra alguma coisa com o outro: me ligue daqui a meia hora
-ahn,? Ta bom.

Passou meia hora.
-Alô?
-E aí ,man? Blz?
Blz, ó seu carro ta em frente a clínica (me esqueci o nome), perto do posto BR, perto do Aeroporto.
(devia ta gravando isso, pensei)SURREAL.
O carro tava lá.Aparentemente intacto. Sem o som.Sem o óculos.NUNCA CONFIE NELES “Tava quebrado mesmo”.Lembrei da bateria e abri a mala , vi tudo da bateria lá e a mochila dos pedais de Vieira, então lembrei que a guitarra estava lá, num case.
Levaram a guitarra de Vieira. Foda.
No fim de tudo o saldo foi positivo, nada de grave nos aconteceu, nem um trauma por violência, mas tivemos muita sorte. Sorte que muito não tiveram, ou morreram ou foram violentados deixando marcas , talvez, pra sempre.
Pois a linha entre tudo acabar de forma tranquila ou não é tênue.Tem que se equilibrar bem nela.