Segunda-feira, Abril 27, 2009

“We could be married,
and then we'd be happy…
Wouldn't it be nice”¹

Aos 13 anos, ela estava sentada no pátio do colégio, esperando sua mãe buscá-la, quando eu apareci com um violão na mão. Ela e uma amiga conversavam. Interrompi a conversa e, apesar de não termos nenhuma intimidade, ela disse:
– Toca uma música aí.
Professor Israel – que ensinava O.S.P.B (Organização Social e Política do Brasil), EMC (Educação Moral e Cívica), História, Geografia e sabia de cor a maior palavra do mundo – durante o intervalo ficava tocando violão e naquela tarde tinha me ensinado uma música de três acordes. Instintivamente, toquei essa música: “Amor da minha vida, daqui até a eternidade, nossos destinos foram traçados na maternidade...”². Sua mãe entrou no som com um arranjo de buzina e ela me deixou cantando sozinho os versos seguintes, “paixão cruel, desenfreada...”.

Doze anos depois, um encontro casual mostraria que eu e Cazuza estávamos certos. E dezessete anos depois, mostraria que estávamos certíssimos:
– Porra, nem chama os amigos – dizem todos quando eu conto a notícia ou quando descobrem uma aliança no meu dedo esquerdo.
– Foi só no civil – me defendo – teve festa não.
– Mesmo assim podia ter falado. Se desse eu ia lá no Fórum pra prestigiar... – respondem, com menos ênfase.
– Saiu no Diário Oficial, viu não?

Minha irmã também casou só no fórum, 12 anos atrás. Eu fui pra ser testemunha, mas a juíza, quando descobriu que eu era irmão, disse:
– Irmão não pode ser testemunha. Nem os irmãos nem os pais.

Não fui testemunha do casamento, mas testemunhei um dia de casamento no Fórum Ruy Barbosa e constatei, surpreso, que tem muitas semelhanças com os casamentos particulares, principalmente os da igreja católica. Os noivos se vestem de noivo e as noivas se vestem de noiva, com vestidos e buquês. Os convidados também se vestem da mesma forma, principalmente as senhoras em vestidos coloridos e brilhantes, em números constrangedoramente menores. A demora é outra semelhança.

Uma diferença é que no Fórum são dezenas de noivas (e noivos) juntas. Todas se entreolhando de cima a baixo. Do véu a cauda do vestido.

Eles mandam você chegar às oito, pois a qualquer hora podem te chamar. Se tiver muita gente pra aquele dia, a espera e o calor serão longos. Você pode ser o primeiro como pode ser o último. Um amigo que casou um pouco antes de mim, me disse que no dele foi por ordem alfabética, tendo como referência o nome do noivo. O nome dele é Alexandre e ele esperou por uma hora e meia. Meu nome começa com a letra “R”. Pouparia meus amigos e familiares desse incômodo. Sofrer dessa forma pra me ver assinar um papel seria desnecessário.

Casar é um sacrifício, já que a primeira coisa que você tem de fazer (depois de achar a tal pessoa) é ir em um cartório. Na verdade, a primeira coisa que os noivos têm de fazer é descobrir o cartório em que foram registrados quando nasceram, descobri onde eles funcionam hoje e ir lá pra tirar uma nova cópia das certidões de nascimento, pois só vale certidão nova. Analisando as certidões velhas, descobrimos que nascemos no mesmo hospital, no mesmo ano e fomos registrado no mesmo cartório, pela mesma pessoa. Doutora Gelsa. Pensei em convidá-la para o casamento.
– Doutora Gelsa faleceu – disse-me uma funcionária do cartório, quando fui fazer as duas novas certidões.

Depois de receber as certidões, você tem de ir ao Bradesco, pagar uma taxa, tirar uma cópia das certidões, voltar ao cartório com a taxa paga, pegar outra senha, esperar por mais duas horas e então autenticar a cópia.
– Por que porra que esses vagabundos não cobram a merda da taxa aqui mesmo e não tiram a caralha da cópia aqui mesmo, já que temos que voltar nessa merda pra autenticar a carniça da cópia? – se queixava um senhor que não agüentou e perdeu a compostura, gritando do lado de fora do cartório. Tava puto, balançando seu volumoso envelope pardo.
Um outro senhor que ouviu a queixa, também com um envelope pardo nas mãos, filosofou:
– Isso é pra dificultar as coisas e assim facilitar a corrupção.

Depois de autenticar a cópia, vai mais em uma série de endereços, com uma série de documentos, pega uma série de senhas e volta pro cartório para marcar a data.
– Só tem data pra fevereiro de 2009 – disse a mulher do cartório.
Era setembro de 2008.
– É mesmo?!
– É – respondeu ela.
“Me fudi”, pensei, ao lembrar das inúmeras vezes que Cris me perguntava sobre os papéis e eu enrolava com o clássico “tô sem tempo”. A ordem que recebia dela era que tínhamos de casar antes da viagem de lua de mel, que começaria no dia 13 de dezembro. Tínhamos de casar antes pelo motivo óbvio de viajar para a nossa lua de mel casados e pelo motivo mais forte de que nosso casamento tinha de ser antes do casamento de Luciana, sua amiga que se casaria no dia 22 de dezembro, na cidade alemã de Korschenbroich, para onde estávamos indo no dia 13.

– Só pra fevereiro? – perguntei de novo.
– Só pra fevereiro. Tá tudo lotado – disse ela, abrindo uma pasta e folheando, como que me mostrando as provas de que o que falava era verdade.
– Minha mulher vai me matar – passei a mão na testa.
Ela ficou me olhando como se perguntasse “e eu com isso?”.
– Só pra fevereiro, é? A última amiga solteira dela vai casar no fim de dezembro – disse eu, pensando alto.
Surpreendentemente, ela pareceu se abater com essa notícia:
– É mesmo?!
– É – respondi.
Ela ficou em silêncio olhando no meu olho, deu uma respirada profunda e reabriu a pasta:
– Xô ver o que posso fazer... – e ficou analisando os papéis enquanto eu rezava.
Finalmente apontou pro final de uma folha com alguns nomes escritos nas linhas e colocou mais uma linha, de caneta mesmo, escrevendo meu nome em cima.
– Você deu sorte que estou de bom humor hoje... Vou botar você pro dia 03 de dezembro. Leve duas testemunhas.

Dia 03, às oito em ponto, chegamos ao Fórum Ruy Barbosa. Eu cresci no rock. Sou modo calça jeans sempre.
– Bom dia, senhor, convidados é por aquela porta – disse o segurança, nos barrando. Cris também estava de jeans.
– Mas somos noivos.
– Opa, desculpe, é por aqui mesmo, então.

Para não constranger nenhum amigo, forçando-o a ir ao Fórum, acabamos por não levar duas testemunhas. A mãe, o pai e uma tia de Cris foram. A tia poderia ser uma das testemunhas, mas faltava a outra.
Nos sentamos e um dos fotógrafos veio conversar comigo, oferecendo seus serviços. Fechamos um acordo.
Enquanto esperávamos, assistindo as cerimônias, percebemos que todos levaram duas testemunhas.

Uma importante diferença dos casamentos particulares para os casamentos no Fórum é que nos do Fórum, os noivos não têm o direito de escolher as músicas que serão executadas durante a cerimônia. Muitos amigos que se casaram, me disseram que passaram dias pensando na música que seria tocada em cada momento da cerimônia. Música pra entrada dos padrinhos, pra entrada do noivo, da noiva, das damas de honra, da saída do casal... Tudo meticulosamente pensado. Sempre alguma música que tem a ver com o casal. A música preferida dele; a música que ela ouvia quando o conheceu...
– Gilson e Joseane – disse a juíza, no microfone.
Take my breath away...”³ – o tema de Top Gun tocava nos alto-falantes enquanto eles se dirigiam até a meritíssima. Gilson e Joseane tinham levado duas testemunhas. Inclusive, tinham levado também damas de honra. Várias levam.

Cris estava nervosa, pois achava que o fato de não termos levados duas testemunhas poderia atrapalhar, correndo o risco da gente nem casar.
– Relaxe – disse eu.
– Mas todo mundo trouxe duas testemunhas – disse ela.
– Relaxe – repeti.
– Se der problema você vai ver...
– Não vai dar problema, no de minha irmã...
– Como não? Se eles disseram “tragam duas testemunhas”, era pra ter trazido duas testemunhas...
– Vai começar?
– Quer desistir?
“Ricardo e Cristiane”, chamou a juíza pelo microfone, interrompendo a crise.
Near, far, whereeeeEEEeeeever you are. I believe…”⁴ – berrava Celine Dion nos alto-falantes com o tema de Titanic.

Nos aproximando da mesa, aproveitando a subida de tom de Celine, Cris me surpreendeu com a proposta, cochichando em meu ouvido:
– A gente chama minha mãe e quando ela disser que mãe não pode a gente finge surpresa e diz que não sabia.
– Mãe não pode. Nem mãe, nem pai, nem irmãos – disse a meritíssima.
– Não?! – dissemos juntos, ensaiados.
– Vai ser você – disse a juíza, tranquilamente, apontando pra seu João, o fotógrafo.
Ele, mostrando costume, manteve-se indiferente e apenas balançou a cabeça.
Dei um tapinha nas suas costas dizendo “valeu, seu João”.

Depois dos “sim” – sim, também tem o “sim” no Fórum –, fomos tirar fotos com os convidados: minha sogra, a tia de Cris e meu sogro.
– Jogou a toalha mesmo, hein? Tsc, tsc – disse ele, enquanto noivas jogavam buquês.

___________
(1) Wouldn't it be nice, de Asher e Wilson.
(2) Exagerado, de Leoni, Exequiel Neves e Cazuza.
(3) Take my breath away, de Moroder e Whitlock.
(4) My heart will go on, de Horner e Jennings.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

“O processo da criação vai de 10 até cem mil” ¹

Oito anos atrás, teve uma festa a fantasia e eu fui de hippie. Eu fui com uma peruca encaracolada modelo Doces Bárbaros que me fez ganhar o prêmio da noite e o apelido de “Arembepe”, dado por Messias.
– Conhece Arembepe? – dizia ele, a quem chegava pra conversar com a gente.

Alguns dias depois da festa, eu dirigia pela Av. Paralela quando um carro me passou. Durante a ultrapassagem, constatei que estava sendo ultrapassado pelo inventor da axé music.
– Caralho, é Luiz Caldas... – falei sozinho.
Subitamente lembrei que a peruca “Arembepe” ainda estava no carro. Quando percebi que iria parar ao seu lado no semáforo, a coloquei. Ele ficou olhando curioso pra mim, como se estivesse reconhecendo um ser da mesma espécie. Eu acenei com um sorriso e ele retribuiu. Seguimos em frente.

No meu livro (e aqui nesse blog), tem um texto sobre um rápido encontro meu com ele, quando ele apareceu, no ano de 2006, em uma mesa redonda rodeada de gente da indústria do carnaval, com uma camisa do Kreator, uma banda de metal da Alemanha. Não conhecia a banda, só de nome, e só pesquisando sobre ela para escrever o texto no livro que fui descobrir que era da Alemanha.

Um amigo meu, Chicão, iria entrar de férias e me convidou para escrever por um mês em seu lugar, em uma coluna semanal no jornal A Tarde.
– Pra falar de rock – disse ele.
Aceitei e, durante o mês de dezembro, escrevi alguns textos falando sobre algumas bandas e artistas de Salvador e seus respectivos momentos. Todos com novos trabalhos. Messias e seu disco triplo; Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta e seu segundo disco; Retrofoguetes e seu segundo disco e Vivendo do Ócio com a gravação do seu primeiro disco.
Fim do contrato, Chicão propôs que eu continuasse escrevendo pra coluna, dividindo o espaço com ele.
– Pra falar de rock – disse ele.

Depois de três anos sem tocarmos juntos, Messias me ligou perguntando se eu podia ir, naquele momento, ao estúdio de André t pra gravar a bateria de algumas músicas do disco que ele estava fazendo. Aceitei na hora. Nada melhor do que gravar. Se for sem ensaiar, então, é o auge de um músico.
Entre uma música e outra, na hora do recreio, André mostrou pra gente um trabalho que ele estava produzindo.
– Ouça isso aqui – disse ele, clicando em um ícone no seu computador, fazendo uma explosão sair das caixas.
Era um som potente, pesado e alto. Bateria alta, guitarra alta e baixo no talo. Só esses instrumentos, o rock mais puro: guitarra, baixo e bateria, o clássico power trio e num volume alto.
– Que é isso?
– É o novo disco de Luiz Caldas.
– Hein? – pelo volume, achei que tinha entendido errado.
André abaixou um pouco o som e repetiu:
– É o novo disco de Luiz Caldas.
Luiz Caldas gravou um disco de rock e chamou André pra produzir. Como produtor, André selecionou Rex (Retrofoguetes) na bateria e seu irmão Rodrigo (Aguarraz) no baixo.
“Se é pra gravar um disco de rock, vou gravar um disco de rock”, pensou Luiz Caldas, imagino, ao convidar André para a empreitada. Isso foi em maio de 2008.

Semana passada, justamente quando eu estava procurando algum tema/banda pra falar na próxima edição do jornal, recebi de um amigo por e-mail o link do myspace de Luiz Caldas, onde ele já disponibilizava algumas músicas do seu disco de rock. Era a chance perfeita pra trocar uma idéia com Luiz Caldas e fazer disso o texto daquela semana.
Uma coisa boa de trabalhar em um jornal é essa:
– Alô, Luiz?
– Opa.
– E aí, meu rei, beleza?
– Beleza.
– Então Luiz, meu nome é Ricardo, tô escrevendo em uma coluna no jornal A Tarde e queria falar sobre seu novo trabalho...
– É uma coluna de quê?
Lembrei de Chicão:
– É pra falar de rock.
– Beleza, você que diz o dia e a hora. Hoje? Amanhã?
Vou testar com mais gente.

Mas a minha estréia no jornal foi meio fró fró. Estava ansioso, era a minha primeira vez e, quando comprei o jornal, apesar da matéria que escrevi estar lá, era o nome de Chicão que assinava. Nada demais, um descuido, mas um amigo meu me ligou de tarde:
– Porra, você tá sabendo?
– O quê?
– Messias gravou um disco triplo. Li hoje na coluna de Chicão. Você tava sabendo?

Entrei na confortável e arrumada casa de Luiz Caldas e fui levado até o seu estúdio de gravação, no andar de baixo. Fui descendo lentamente as escadas, olhando os discos de ouro pendurados por toda a parede. A trilha sonora da minha infância estava naquela parede. Milhões de cópias que fizeram o Brasil inteiro olhar pra nêga do cabelo duro ².
Ele estava do lado de fora, sendo medido por duas mulheres que imagino trabalharem com roupas.
– E aí, meu velho, peraê que a gente já conversa – disse ele, ao me ver.
Estava de cabelo curto.

Na história da música, vez ou outra, ainda antes do MP3, alguns artistas se arriscavam a lançar álbuns duplos, triplos e até quádruplos, como foi o caso do Guns and Roses, que lançou, simultaneamente, dois álbuns duplos em 1992.

Em 1968, os Beatles fizeram o seu álbum duplo e, em 1970, com o fim da banda, George Harrison fez o seu álbum triplo. Foi o primeiro artista a lançar um álbum triplo. Nos Beatles, ele não tinha espaço pra gravar suas músicas, pois, hierarquicamente, não podia competir com Lennon e McCartney. Era uma música ali, outras duas aqui... Com o fim da banda, livre para voar, lançou, de vez, 27 músicas. Todas de sua autoria. Se desentalou.

Na era do MP3, um álbum simples já não vale tanto o investimento para as gravadoras. Álbuns duplos e triplos nem pensar. Se Messias já impressiona pela iniciativa de gravar e lançar (esse ano) um disco triplo, Luiz Caldas vai mais longe.
– Fale aí, Luiz, sobre esse disco de rock – comecei o diálogo.
– Rapaz, pra falar do disco de rock eu tenho de falar do projeto.
– Que projeto?
– Vou lançar 10 discos.
– Hein?
– Vou lançar 10 discos.
– Dois discos?
– DEZ discos.
– DEZ DISCOS?!
– É. Cada disco com 13 músicas. São cento e trinta músicas inéditas.
– Hein?
“E os ensinamentos de Caymmi?”, pensei em perguntar.

Vai ser um disco de axé, um instrumental, um de rock, um de frevo, um gravado em Tupi, um de forró, um de samba, um de superpopular e dois de MPB. O único que repete.
– MPB abrange muita coisa – explicou.
– E superpopular, o que é isso?
Superpopular é o nome real para o que conhecemos como música brega. O nome “oficial” é esse. Os verdadeiros artistas nunca se sentiram à vontade como a palavra “brega” para designar sua música. Sempre soou pejorativo.

Fiquei pensando em alguma pergunta e a única que consegui achar foi a mais óbvia:
– Por quê?
– “Por que” o quê? – ele revidou.
– Por que você tá lançando 130 músicas? Qual o seu intuito?
Ele pensou um pouco e com bastante tranqüilidade respondeu:
– Quero desconstruir o que fiz para construir algo novo. Não quero mais ser apenas o cabeludo que andava descalço (naquele momento, em sua própria casa, Luiz usava um All Star branco) cantando Fricote ², Tieta ³ e Ajayô ⁴. Tieta já é uma senhora, foi sucesso em mais de 60 países, já tem sua história. Não as renego, tenho orgulho delas e as tocarei pra sempre, mas agora quero fazer outra coisa. Não é um trabalho pra fazer sucesso, nem pra vender milhões, é apenas um artista querendo registrar sua criação – desabafou.

Todos foram gravados para soar como um disco de tal gênero. O disco de rock teve o cuidado de ser produzido por um produtor referencial como André t e tocado por músicos autênticos de rock, com instrumentos autênticos de rock and roll; com o disco de forró, é a mesma coisa, com timbragens, músicos, instrumentos e ritmos originais do forró; de frevo foram duas guitarras baianas, baixo, caixa, surdo e pratos, e por aí vai.
– E o de Tupi, quais foram os instrumentos usados? – perguntei.
– Água, vento, mato seco... – respondeu.

– Essas músicas você já vinha acumulando há quanto tempo?
– Tudo foi criado agora. De março de 2008 até janeiro de 2009 – disse Luiz, mostrando-se disciplinado no doloroso processo de criação e mostrando que nenhuma música ali é uma composição não utilizada do passado, requentada, o que dá mais credibilidade ao projeto. – Eu imagino uma música e dentro da minha cabeça consigo enxergar perfeitamente como ela vai ficar, como vai ser a batida, os instrumentos. Aí desço pro meu estúdio e gravo.
– E o rock? – perguntei.
– Ouço rock desde que nasci. Ouvia Jackson Five, mas o primeiro som de guitarra que me fez a cabeça foi o do Creedence. Naquela “época do axé”, eu metia rock and roll na avenida, sempre toquei, só que ninguém tava ligado. Nêgo embaixo ficava pirado: “que é que esse filho da puta tá tocando aí?”. Inclusive cheguei a trazer o Ultraje a Rigor pra tocar no trio elétrico, no carnaval de Salvador.

– E o axé? – perguntei.
– O axé tá isso aí: músicas feitas pra ser um estouro no verão – foi sucinto.
– E você se considera o pai do axé?
– Sim. Quando comecei, o carnaval da Bahia era feito só de frevo, então eu trouxe o teclado pro trio elétrico, a percussão na frente e uma série de referências, dentre essas estava o rock and roll, daí o porquê de eu ser o pai do axé. Existia uma criação ali. Mas hoje a nossa música é escrava do carnaval atual. Tem uma música do meu disco de frevo que é uma condenação a esse modelo de carnaval vigente, com os camarotes tirando o espaço do povo e fazendo o trio elétrico perder a sua função.

Luiz cantou a música e realmente é uma crítica corajosa, ainda mais vindo de quem vem.
– Tô com 46 anos, não tô aqui pra fazer “aê, aê, aô”, vou provocar – completou.

Entramos no estúdio para finalmente ouvir o disco. Luiz acompanhava cantando todas as músicas, fazendo air guitar, air drums e air bass em todas elas. Estava sendo sincero e isso parece ser fácil pra ele. De vez em quando, ele comentava algo como “não sou cantor de rock, mas não sou ruim” ao ouvir sua voz, “é a velha Gibson”, ao ouvir sua guitarra e “isso é rock and roll”, ao ouvir uma música sua com forte referência nos anos 70.

As músicas têm um formato pop e todas com uma forte carga progressiva. Luiz gosta muito do trio inglês Emerson, Lake & Palmer.
– Mas essa é George Harrison, se ligue – disse ele, segundos antes de entrar uma música com toda a referência e o suingue de Taxman ⁵.
Em outro momento, ele contou uma história:
– Uma vez, eu tava andando e cruzei com uns adolescentes metaleiros, todos de camisa preta e tal e eu com uma camisa de uma banda que gosto muito, de metal, e os caras disseram “e colé de você com essa camisa aí, tio?”, aí eu parei pra conversar e falei um tempão sobre o rock. Eles ficaram calados, me olhando... No final, ainda recomendei: ouçam Kansas.
– E a camisa era de que banda?
– A que eu vestia?
– É.
– Do Kreator, conhece?
– Tô ligado, da Alemanha, né?
– Isso.

Depois de ouvir o disco, tive de ir, mas antes mostrei pra ele o tamanho da coluna no jornal.
– Luiz, obrigado por ter me recebido e por ter gasto o seu tempo me explicando sobre o seu trabalho, só fico sentido que o espaço no jornal não seja tão grande e, de repente, terei de resumir bem essa nossa conversa...
– Que nada, fique à vontade. Sei como é.
Já na saída, ele falou:
– Você falou no começo da conversa que toca bateria, né?
– É, mas tô meio parado...
– Então vou te chamar pro próximo disco de rock que vou fazer. Você vai ser um dos bateristas...
– Será uma honra. Que disco é esse? Já tá com outro projeto, é?
– Com vários... Tô gravando um com o André Abujamra...
Ficaram amigos recentemente através do myspace, e Abujamra disse a ele que nos anos 80 vinha ao carnaval de Salvador só pra vê-lo tocar.
– É com Abujamra esse próximo disco de rock? – perguntei.
– Não, com Abujamra é outro disco. Esse disco de rock que tô te convidando é um projeto que... – Ele olhou pro seu produtor e parceiro César Rasec, como se pedisse aprovação pra falar. César olhou de volta pra ele como se dissesse “você que sabe”. E Luiz resolveu falar:
– Tô com outro projeto de gravar mais 120 músicas...
– Hein?
– Mas é melhor eu te contar outra hora. Senão vai ser muita informação pra você.
– Rapaz, é melhor, é muita informação...

___________
(1) O processo da criação vai de 10 até cem mil, de John Ulhoa.
(2) Fricote, de Luiz Caldas e Paulinho Camaféu.
(3) Ajayô, de Luiz Caldas e Jorge Dragão.
(4) Tieta, de Paulo Debétio e Boni.
(5) Taxman, de George Harrison.

Sexta-feira, Dezembro 12, 2008

“Livrei-me dos livros, pois eles não me livraram”¹.

Tudo foi em cima da hora. Mandei um e-mail pra uma livraria, eles responderam, fechamos o acordo e:
– Semana que vem, então.
Fechar o lançamento de um livro em uma cidade como São Paulo com pouco mais de uma semana de antecedência é culpa da intuição. Eu queria que o livro fosse pra lá ainda em 2008, ano de seu lançamento. Não queria entrar em 2009 com coisas ainda a fazer com esse livro. Ano novo, livro novo.

O resultado de Para Colorir, considero que foi muito interessante. Acredito que o livro cumpriu boa parte do seu objetivo. Do ponto de vista financeiro, diretamente, o livro se pagou. Fiz 1000, vendi 614 e dei 230. Ainda restam 156. Calculando com o preço médio da venda em 30 reais, recebi R$18.420. Porém tem de calcular que, só no lançamento, dos 180 livros vendidos no evento, 40% da venda ficou com a livraria. Culpa de Jorge Amado que disse “livro tem que ser lançado em livraria”. Que merda, hein, seu Jorge? Se eu fizesse no Póstudo ou no Balcão, bares de amigos meus, seria 100% do lucro.
Outro gasto eram os correios para os exemplares enviados a jornalistas, escritores... O livro tem quase 600 gramas e seu preço de envio, pra fora do estado, não custa menos de 10 reais. R$800 reais ficaram com os Correios. Quando é pedido de compra, tenho de incluir o frete. Por causa dessa tarifa, perdi leitores. Uma menina do interior do Rio Grande do Sul pediu um livro. Fiz o orçamento e respondi o e-mail:
– O livro custa R$30 e o frete praí custa R$16, deixando o livro por R$46.
Ela respondeu dizendo que ia esperar eu lançar o livro por lá. O preço do frete ser metade do preço do livro assusta.

Mas São Paulo tem 20 milhões de habitantes. Só precisava que cinqüenta deles, cinqüentinha só, nada demais, comprassem o livro. Fiquei hospedado na casa de Gabriel, formamos juntos na faculdade, mas ele foi pro lado negro da força e virou um ganhador de dinheiro em São Paulo. A passagem aérea foi nos pontos do cartão de crédito. Por sinal, tem propaganda agora até antes da decolagem. Um absurdo. Fico lá na poltrona, tenso, querendo rezar e não consigo por causa dos comerciais gritando no ouvido.
Já comecei a viagem no prejuízo. Como o livro pesa 600 gramas e levava cinqüenta na mala, o excesso de bagagem ficou por R$120. O táxi do aeroporto até casa de Gabriel, R$50 reais.

O livro me trouxe interessantes surpresas. Conheci pessoas, me reaproximei de outras e consegui muitos trabalhos usando ele como parte do curriculum. Foram tantos trabalhos que este blog, que já é mal atualizado, ficou em estado vegetativo.

Acredito que uma boa pesquisa sobre um produto é saber que faixa etária o consome. O livro começou com os amigos. Pessoas entre 25 e 45 anos. Fiquei fazendo um ranking das mensagens que chegavam, atento aos “meu pai tá lendo”. Uma amiga disse que chegou em casa e a mãe falou “você vai ter que me levar pra conhecer Cascadura e brincando de deus”. Outro e-mail foi:

E aí Cury, beleza?
Estou dando um rolé com minha esposa por Chile e Argentina. Seu livro está aqui também.
Seguinte, dia desses deixei o livro no quarto do hotel e fui sair com meu irmão e sua esposa. Quando voltei de madrugada, minha afilhada (filha deles) estava virando a noite na cama "comendo" o livro. Agora não posso dar um vacilo que ela "rouba" o livro. Sem contar que ela passa o dia todo me chamando para montarmos uma banda de reggae chamada "Filhos de Jahguaracy". Ela vai embora para o Brasil amanhã, e não vai conseguir terminar o livro. Queria ver se tem como você deixar um exemplar na portaria do prédio dela para quando ela chegar em casa o livro já estar lá, a esperando. Agora a parte que você não vai curtir muito: eu gostaria que você escrevesse algo para ela no livro. "Não sei que porra você vai escrever para alguém que você nunca viu na vida", mas, para ajudar, ela se chama Paloma, tem 12 anos, se amarra em ler... É isso.
Valeu pelo livro.
Abraço.


Paloma liderou o ranking de leitora mais nova por um bom tempo, mas eu fui trabalhar por três meses em um lugar e dei um livro para a funcionária faz-tudo de lá, que se chama Cris. Ela varre, recolhe o lixo, serve o café... Tem uns livros que vieram com defeito: página descolando, página torta, outro que veio de cabeça pra baixo. Isso já é previsto, por isso que a gráfica manda sempre um pouco a mais. Esses livros defeituosos eu dou e levei um pra ela, que tem 26 anos, dois filhos e está no segundo ano colegial. Depois de dois meses, ela disse:
– Ô, Cury, seu livro eu ainda nem peguei pra ler, sabia?
– Deu mole – disse eu.
– Mas minha filha tá lendo.
– Sua filha?????!!!! – quase engasguei com o café.
– É.
– E ela tem quantos anos?
– Nove.
– Mas Cris, você tá maluca? O livro tem alguns palavrões...
– É mesmo?!!! E agora?Ai, meu Deus... – ela botou a mão na cabeça, preocupada.
Aí eu fiquei sem saber o que dizer, mas logo em seguida, ela disse, como se tivesse acabado de lembrar de algo:
– Mas ela lê com minha mãe.
– Com sua mãe??!!!! – engasguei de novo.
Ela disse que todo dia é uma história antes de dormir.

Mas o e-mail mais doido e psicopata foi o do amigo e jornalista Emmanuel Mirdad.
Não o conhecia pessoalmente até que ele me pediu um livro. Fui em sua casa entregar, nos conhecemos e, dois dias depois, recebi um e-mail dele dizendo que comparou todos os textos do blog que estão no livro e anotou todas as diferenças, as comentando, criticando e elogiando. Essas são algumas do seu e-mail:

Cury, li o seu livro em dois dias. Gostei de muitos textos, da forma como você organizou, etc., e resolvi comparar o livro com os textos da forma como você escreveu no blog, aí busquei a linha da sua edição. Fiz alguns comentários. Confira:

Texto 1- A Primeira Bateria os Vizinhos Nunca Esquecem

No blog: Depois de duas horas de zuada...
No livro: Vc pôs “algumas horas”. Duas horas é muito pouco pra espancar o presente!

3- Rock II

Blog: Mundamundistas achei fró fró
Livro: “Mundamundistas não me emocionou muito” - que garimpagem caprichosa! ehehe

4- Rock III

Blog: ... a Van era latas de cerveja e sementes pelo chão
Livro: Apagou sementes?? Olha o cometimento... Preconceito, hein? Esses maconheiros...

Blog: ... produtor do evento, Serjão / ... essa é minha mãe, dona Vera
Livro: “Marcão” / “dona Jera”

Blog: surpreendido por Vera Verão
Livro: “surpreendido por Jera Venenosa” – ahahahahahah. Adorei esse respeito póstumo!

6- É Toda Essa Mistura Baiana Malemolente

Blog: No carnaval de 95
Livro: “Em um dos carnavais da vida” - nada de detalhar as coisas, hein? Salvador é um ovo!

Blog: Mas depois de 37 segundos voltou com tudo
Livro: “16 segundos depois” - queria entender essa revisão; cronometrou de novo, foi?

Blog: ...no banheiro da garagem e tinha 455.784.837 baratas
Livro: “825 baratas”- passado o pânico, a prudência surge; prefiro o exagero, é mais sincero.

7- Mais Uma Mistura Baiana Malemolente

Blog: O que pode ser pior do que pegar um avião da BRA...
Livro: “O que pode ser mais emocionante” - moleculou um ponto de vista mais harmônico!

Blog: Big Brother com seus 160 Kg e suas 160 tatuagens...
Livro: 140kg / 140 tatuagens - ele pediu pra ficar mais esbelto no impresso, hein?

Blog: ...dormirem ou tentarem, pois o ronco de Rogerão era maior que o barulho das turbinas
Livro: Vc parou em dormirem. Aliviou com Big... camaradagem ou chantagem?

9- Diário de Água

Blog: durante 3h, é de arrepiar
Livro: “é uma terapia para curar qualquer trauma” - olha o floreio excessivo! É de arrepiar soa muito mais sincero.

Blog: você pára de nadar pra pegar o saquinho e A DOR AUMENTA EM 100%!
Livro: “A dor fica duas vezes mais forte” - mais sensato, menos sensacionalista

10- Os Tortos e os Direitos

Blog: ...Luis Fernando Veríssimo tem um texto que diz que se os advogados tivessem um hino, que este começaria com “Data venia, data venia, data veniaaa...”
Livro: Outra passagem hilária q poderia ter ficado.

Blog: Meu avô ... é idoso, tem 87 anos
Livro: “85 anos” - saber a idade do avô de cabeça é muito raro...

Blog: ladainhas ... retóricas pra fazer média...Parece que são publicitários
Livro: Você tirou isso. Porra, essa não poderia ter ficado de fora!!!!!!!!

11- Já que o Mundo dá Voltas, Vamos dar uma Voltinha

Blog: Em 1993, quando eu tinha 15 anos, eu namorava com uma menina
Livro: "menina" virou “Angélica” - rolou uma pós-consulta com a patroa e ela liberou dar nome às ex? Que beleza!

Blog: Às onze e meia ... deixei o prédio dela...
Livro: “Às dez e meia” - mais conservador, menos comprometedor.

Blog: Depois de uns 20 metros fiz a curva fechada
Livro: “Quarenta metros” - passou por lá de novo, minuciosamente; deu arrepio?

13- Curtindo a Vida Adoidado

Blog: ...to tocando Beatles com Magal. Surreal demais
Livro: Vc suprimiu essa expressão, que desenhava muito bem o que foi esse momento único!

15- DJ Mocó Sonrisal Colesterol

Blog: Constatei que os anos 80 é insuportável. Ou só suportável por 2 minutos
Livro: “por 30 segundos” - diminuição muito mais realista!!!

16- Quem Tem Boca Vai a Roma. Mas Não Vê o Papa

Blog: O metrô de Roma é o pior que vi, além de sujo só tem duas linhas.O bom é que era o mais fácil pra não pagar.Dava pra passar livremente
Livro: Suprimiu isso do livro. Merda. Essa informação eu não iria encontrar em nenhum Frommer’s da vida.

Blog: Corri, bati foto, dei tchau tb...e senti de novo aquele clima leve, pois naquele momento, todo mundo que está ali, naquele lugar, acenando, só ta pensando numa coisa: no bem.
Livro: Suprimiu. Achou viadagem? Rpz, foi não. Foi bonito, do bem. Poderia ter ficado.

20- 1,55 x Maior do Mundo

Blog: Cris, com seu 1,58
Livro: “1,55m”- Imagino o quanto que ela deve ter ficado tentada em deixar vc errar a altura dela

21- Pé de Moleque

Blog: Recomendo até pra quem odeia futebol. É bem melhor que teatro
Livro: De novo, vc cortando esses desfechos sarcásticos excelentes... Sei que vc precisa vender uns exemplares pra esse povo de teatro aí mas: PORRA, Cury!

23- Goteira no Salão de Festa

Blog: ...período mais longo sem chuva. Uns 15 minutos.
Livro: “Uns dez minutos” - queria entender essa redução; doideira pura.

Blog: ...pois foi o que chegou mais perto...são 7:28
Livro: “9:28” - no contexto do que vem em seguida (“Podem chorar. A noite seria longa”), a informação do blog me parece mais concisa.

Blog: ...olho o celular, 11:48
Livro: “11:38” - aqui, vc foi mais realista, de acordo com o desenrolar da narrativa

Blog: Estavam mega-super-hiper-plus-big geladas
Livro: “Estavam estupidamente geladas” - olha o parnasianismo aí, gente!

26- Waking Life

Blog: ..Senhor “picão”
Livro: “...coronel da região” - mais educado, melhor!

28- Geografia Nacional

Blog: A cobra...entrou na água...pelo menos 10 minutos...o tempo que eu fiquei paralisado
Livro: “cinco minutos”- depois do susto, até que não foi tanto tempo assim, né?

29- Vassouras, Chinelos e Bomba Atômica

Blog: ...eu tava na varanda pensando nas baratas, eram 18:30
Livro: “eram seis da tarde”- por motivos estilísticos, comeu essa meia hora aí, hein?

30- Waking Life II

Blog: Biafra diz - “O sonho é o momento em que nosso espírito se solta, não da matéria, mas da energia material...” / Cury diz - Imagino...
Livro: Cury diz - “Entendi” - no blog, vc dubiamente fantasiou a resposta. No concreto renovado do livro, vc apenas passou o tempo. Pra mim, impressões diferentes.

Blog: Biafra - “A maconha abre o chakra e por isso eu tive que parar de fumar, pois comecei a receber entidades, tenho uma mediunidade muito forte...” / Cury - Entendo...
Livro: Cury diz- “Sei como é” - no blog, vc entediou o tempo na resposta. Já no livro, vc afirma, categoricamente, que sabe como é. Bela assumida, hein?

31- Pega Totó

Blog: Avancei mais dois segundos
Livro: “quatro segundos”- continuo sem entender essas micro-reduções; coisa de chapado

33- Waiking Life III

Blog: “Vou ficar uns 20 dias aqui, vou trazer tudo do carro”- pensei
Livro: “duas semanas aqui” - cinco dias a menos. Não quis incomodar tanto, né?

35- Atrás do Trio Elétrico Só Não Vai Quem Já Morreu

Blog: A conversa estava surreal
Livro: “A conversa estava além do real” - Rpz, notei que vc suprimiu quase todos os “surreal” do livro, o que me incomodou, mas este aqui foi demais. Pra que isso, parnasiano? Isso foi indicação de seu avô?

Surreal esse e-mail.

Andando por São Paulo, vi uma cidade diferente dessa vez, pois vi uma igual a todas. Como em toda grande cidade do mundo, São Paulo tem bancas de jornais vendendo sexo e violência, tem carros que aceleram pra você se assustar e correr pra atravessar a faixa, tem carros-fortes nas portas dos bancos, com seguranças e transeuntes tensos, tem pedintes nas portas dos bancos, um com uma placa dizendo que tem câncer, mendigos pelos viadutos, varredores de rua cantando algum sucesso popular, gente com camisa do Iron Maiden, pessoas com fone no ouvido, anúncios de coca-cola, cocaína, emos nas estações de metrô. Epa, Salvador não tem isso, Salvador não tem metrô. Desde Mário Kertesz, nos anos 80 (os anos 80 não foram bizarros só na música), que Salvador espera esse metrô. Agora tá uma divisão de tarefas entre o Governo e a Prefeitura. O Governo diz que só é responsável pela compra dos trens, enquanto a Prefeitura é com o resto todo. Os trens chegaram e o Governo colocou o outdoor dizendo: “Os trens do metrô chegaram, já cumprimos nossa parte”, ou seja, agora se fodam, não temos mais nada a ver com isso. Vocês que se virem.
Uma coisa interessante do metrô de São Paulo é a disputa entre "os de dentro" X "os de fora". A estação Paraíso, meio-dia, torna-se um inferno pela quantidade de gente aglomerada querendo entrar no trem, ao mesmo tempo em que os trens chegam entupidos com gente aglomerada querendo sair. Tive de esperar uns três metrôs nessa luta. No meio do percurso, você já não domina seus passos. A multidão te leva. “Isso, vamos, não deixem eles saírem”, pensava eu, a cada metrô que chegava. Fiquei com a mania de toda vez que saía de uma estação, dizer “seus malucos”.

No primeiro dia em São Paulo, fui visitar a livraria onde seria o lançamento. Livraria Pop. Entrei e dei de cara com o produtor musical Carlos Eduardo Miranda.
– E aí, Miranda, como é que tá?
– Opa, beleza.
– Tá lembrado de mim?
Ele deu a clássica resposta “tô, mas não lembro de onde”.
Falei da banda ZecaCuryDamm e ele lembrou na hora.
– Mudaram o nome, né? Tu saiu, eu soube... Adorava esse nome.
– É?! – me espantei.
Lembro de ele ter falado comigo “mas esse nome, não sei, não...”, quando conheceu a banda. Comentei com ele isso, mostrando o livro.
– Aqui ó, tá no livro... – disse eu.
– Que livro é esse?
Me deu uma carona até o metrô, levou um livro e disse que, se gostasse da minha escrita, iria me contatar, pois está querendo escrever suas memórias, mas não tem a manha.

A pior coisa de São Paulo é que você encontra com seus amigos a todo momento, em toda esquina, mas depois percebe que não é. Encontrei com Apú quatro vezes, Rogerão duas, Cândida três... Na hora, dá aquela sensação de um encontro na rua, mas logo em seguida cai a ficha de que não é. “Ih, né não, tô em São Paulo”. Curioso foi que, quando cheguei em Salvador, encontrei um amigo que me perguntou:
– Por acaso você estava em São Paulo esse fim de semana? Na livraria Cultura?
Respondi que sim e ele disse que me viu, mas tava meio longe e ele achou que não era eu, pensando “né, não, tô em São Paulo”.

Mas como és o avesso do avesso do avesso do avesso, entrei em um ônibus e passando pela roleta, ouvi alguém dizer:
– Cury?
“Né, não, tô em São Paulo”, pensei.
– Cury? – repetiu.
E era uma amiga de Recife, que eu não via há cinco anos, e para quem eu tinha mandado um e-mail avisando do lançamento. Ela respondeu que iria sem falta, mas, um dia antes, nos encontramos ali, no meio de 20 milhões de pessoas.

E como és o avesso, do avesso, do avesso, do avesso, a leitora Paula, de São Paulo, que se tornou grande amiga virtual, que desde que leu o livro pede por um lançamento por lá, não poderia ir a esse pois seria madrinha de casamento justamente no dia.

E o lançamento foi muito bom. Vendi 12 livros, reencontrei muitos amigos, conheci outros e depois fomos sair por São Paulo. Eu, Spencer, Dra e Abreu. Dra e Abreu também são baianos morando por lá e foram baixista e baterista de uma banda chamada Hijos de Piedra, nos anos 90. Por um momento da noite, ficamos cantando, entre a louca fumaça paulista, sucessos antigos do carnaval baiano. Cada um puxava um. Spencer lançou “ê pa pi ô, ê ô, paparauê, ê ô, paparauê, i ô, paparauê, ê ô”, do clássico Vai lá, Mané², do Chiclete com Banana.
– Por que a gente sempre faz essa merda? – perguntou ele, ao fim da sessão musical.
– De relembrar os sucessos da axé music?
– É.
– Boa pergunta – respondi.
Pitty se juntou à gente e fomos todos prum evento realmente pop. Pegamos um táxi de um cara que era de Recife. Saltamos no local, fechei a porta e só quando o táxi acelerou indo embora, me lembrei que deixei minha sacola dentro dele. Aos poucos, fui lembrando do que estava dentro e me desesperando. “É nenhuma, só tinha dois livros... e um caderninho de anotações... eta, porra, a máquina fotográfica... vixe, meus documentos...” E numa corrida constrangedora, fui atrás do táxi gritando “Pernambuco, Pernambuco”. Perdi o fôlego, a moral, mas recuperei a sacola.
Na festa, Nando Reis, Marisa Orth... Com as credenciais conseguidas, ficamos na área vip, ao lado de Marcelo D2 e Latino. Latino cantava todas as músicas que o DJ colocava. Eu não conhecia nenhuma
A casa era grande, mas estava entupida e resolvemos sair do espaço do show e ir pro local aberto da casa. Ao sair e sentir o vento gelado, comentei:
– Porra, sensação igual à de sair do Calypso – disse, sobre o infernal e esfumaçado tradicional bar de Salvador.
– Porra, é mesmo – disseram na hora os quatro baianos.
D2 ficou viajando na conversa e Pitty perguntou:
– Conhece o Calypso?
– Claro, toquei lá com os caras.
– Hein? – disseram os quatro baianos.
Eu, nem ninguém ali, lembrava de alguma aparição de D2 no Calypso.
– Toquei lá com os caras – repetiu ele.
– No Calypso? – perguntou Spencer, querendo confirmar.
– É... Foi muito doido, aquela Joelma fica jogando o cabelo, quase me acertou na cara...
E a gente falando de rock and roll.
Voltei antes de todos, sozinho, em um táxi de um cara de Vitória da Conquista.

Por São Paulo, vendi mais oito livros pessoalmente e dei seis. Em Salvador, depois da viagem, vendi mais 14 para pessoas que mandaram e-mails dizendo que descobriram o livro nas mídias que divulgaram seu lançamento por São Paulo: G1, Folha Online, Band News e blogs espalhados pelo mundo virtual.

Nesse trabalho de três meses que falei no início do texto, no primeiro dia depois do seu término, em casa, ainda desacostumado com a tarde solitária, recebi um e-mail de um amigo que trabalha na secretaria de cultura da Bahia me convidando para um debate com o ministro da cultura Juca Ferreira. Mais uma vez por culpa da intuição, resolvi ir. Ouvi o ministro e fiz uma pergunta sobre o alto preço cobrado pelas livrarias nos livros que são feitos com o patrocínio do governo. Um fotógrafo veio e tirou uma foto minha. Aproveitando que estava com os livros, entreguei um pro secretário Márcio Meirelles e outro pro ministro Juca Ferreira.

No dia seguinte, a foto estava no jornal A TARDE. Um dia depois, encontrei com Emmanuel:
– Vi sua foto ridícula no jornal. Venha cá, você não tinha nada melhor pra fazer, do que ir segunda de tarde pro TCA, para um encontro com o ministro?
Concordei com ele, mas semana passada mudei de idéia ao receber um telefonema da secretaria de cultura, dizendo que queriam comprar 100 livros para presentear os participantes do 1º Encontro de Dirigentes Subnacionais de Cultura da América do Sul – Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Cultura do Brasil. Fiz a venda, aumentando o gráfico para 714 livros vendidos e diminuindo o das sobras para 56. Esses não venderei, por enquanto, pois não sei ainda se farei mais outra edição. Ano novo, livro novo. Esse já encerrou seu ciclo. Me despeço dele com carinho. E já que a primeira frase do livro é de Spencer dizendo “Man, você tem que escrever”, finalizo esse ciclo com outra idéia de Spencer, que também foi concretizada. Durante essa minha estadia, em uma das noites, fomos ver a banda Vanguart tocar às duas da manhã na livraria Cultura, na Av. Paulista. Indo embora da livraria, ele disse:
– Tem algum livro aí na sacola?
– Tem.
– Man, deixe um na seção dos best sellers.
Deixamos o livro lá. Se você for nessa livraria e acha-lo, pode levar, é seu, a livraria não tem seu registro de entrada.
_____________
(1) Lembrei, de Mauricio Baia e Gabriel Moura.
(2) Vai lá Mané, de Waldemar Marques e Washington Bell Marques.



Em tempo: Antes de publicar esse texto, mandei esse trecho pra Spencer pelo MSN:

Cury diz:
Por um momento da noite, ficamos cantando, entre a louca fumaça paulista, sucessos antigos do carnaval baiano. Cada um puxava um. Spencer lançou “ê pa pi ô, ê ô, paparauê, ê ô, paparauê, i ô, paparauê ê ô...
Spencer diz:
que musica é essa, man? é um genérico?
Cury diz:
porra, chiclete, a que você cantou “vai lá mané”.
Spencer diz:
as onomatopéias estão corretas? não identifiquei...
Cury diz:
onomatopéias são sempre assim. esqueça o que escrevi, apenas lembre da música
Spencer diz:
não to conseguindo... é uma rapidona?
Cury diz:
“todo mundo fala, vai lá, vai lá, mané, e agarra ela estica daqui e pega no pé é ééé...”
Cury diz:
e aí entra o “ê pa pi ô, ê ô, paparauê...”
Spencer diz:
man, a que eu cantei foi “e eu, pira-pa-pirô, perco meu tempo pra te convencer, pira-pa-pirô...”

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

Lançamento do livro Para Colorir, em São Paulo

Dia 29 de novembro, sábado, às 16h, na Livraria Pop – www.livrariapop.com.br – Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297, Pinheiros, São Paulo - SP.

O que eles disseram:

“Cury, seu blog é um livro que vai ficar registrado pro resto da sua vida (já pensou nisso?)” – Marcos Abreu, no blog, em 8 de dezembro de 2005.

“Esse livro vai ser um lixo e uma farça (sic), como tudo o que Cury faz... Farçante (sic)” – Anônimo, no blog, em 9 de abril de 2007.

“Putaquepariu! Que livro massa da porra! As mais sinceras e entusiasmadas e
reverentes saudações” – Fábio Massari, por e-mail, em 5 de maio de 2008.

“Inaugurado um novo gênero literário: o da crônica brasileira rock and roll. Nos textos de Ricardo Cury, as situações mais banais servem como partida para narrativas envolventes, com gosto pelos detalhes e muita autoparódia. Impossível não morrer de rir com as desventuras de Cury por São Paulo, visitando jornais, editoras, estúdios e rádios para entregar o CD de sua banda. É crônica do século 21. Um livro atento, fluente, jovem e, é claro, visceralmente roqueiro” – Álvaro Pereira Jr., na Folha de São Paulo, em 12 de maio de 2008.

"Você só tá nessa de escrever pra justificar a vagabundagem e incompetência em fazer outra coisa" – Anônimo, no blog, em 9 de maio de 2007.

Para visualizar melhor o convite, clique na imagem abaixo.

Segunda-feira, Outubro 20, 2008

“Even if the sun goes down (I’ll surf)” ¹

Jaguaribe no Wikipédia, segundo Silveira Bueno, é vocábulo indígena que significa "no rio das onças". Do tupi yaguar: onça; y: rio; e pe: em.

Jaguaribe em Salvador é uma praia que era muito bonita. A freqüentei na minha infância e adolescência. Hoje continua bonita pela beleza natural, mas destruída pelas administrações públicas, que começaram uma obra de padronização das barracas, mas que foi embargada pelos ambientalistas, ficando a obra pela metade, deixando a praia bagunçada, suja e sem infra-estrutura.

O maior impacto musical dos anos 90 foi o Nirvana. Pelo menos pra mim. Mas desconfio que não teve esse que não ficou arrepiado quando o baterista Dave Grohl deu as primeiras porradas na bateria na introdução da música Smells Like Teen Spirit².

Como toda banda que causa impacto, assim como em qualquer outra expressão artística, o Nirvana trouxe consigo uma série de bandas no rastro, fazendo-as aparecer também. Algumas que são cópias e ficam espalhadas pelo mundo; outras que são conterrâneas e contemporâneas; outras que não são contemporâneas, mas que são conterrâneas e referências; e outras que são apenas referências. No caso do Nirvana, a influência mais direta pra aquela sonoridade violenta, suja e desafinada era a banda Mudhoney, que era conterrânea (de Seattle), contemporânea (dos anos 90) e uma forte referência (aí, só ouvindo pra entender). Seus discos vieram na carona do sucesso do Nirvana e foram muito bem vendidos aqui no Brasil, considerando o meio alternativo em que a banda está inserida.

Uma das mais expressivas atrizes da história da Bahia morreu, aos 85, no dia 10/10 desse ano. Tentei falar várias vezes com meu amigo Ricardo Spencer, neto de Nilda, mas não conseguia. Quatro dias depois, o telefone tocou:
– E aí, man?
– Quem é? – não reconheci a voz.
Ele riu:
– Sou eu, Spencer... só parei de beber ontem. Preciso trabalhar. Senti uns tapas de minha vó me batendo na cara como se dissesse “vá trabalhar, meu querido Ricão”.

Ela era sua amiga de trocar idéias e referências. Até sobre Bukowski, avó e neto conversavam. Nilda Spencer era também grande pianista.
– Preciso de uma carona – disse ele.

Veio se despedir da avó, justamente quando Salvador teria o seu segundo grande show de rock de uma banda internacional, desde o tempo de Tomé de Souza. O primeiro foi em 2005, com Placebo. Agora, três anos depois, Messias estava produzindo a 4º edição do festival Boom Bahia e convidou o Mudhoney, que já estaria em turnê pelo Brasil, para fechar o evento. Eles aceitaram.

Spencer está morando em São Paulo há quatro anos, trabalhando como diretor de cinema, sendo reconhecido com premiações nacionais da MTV e Multishow. Saiu de Salvador com três clipes no currículo. Hoje tem 24. Me ligou porque precisava fazer o vigésimo quinto e, para isso, tinha de chegar até o hotel onde o Mudhoney estava hospedado. Teve a idéia do vídeo, comunicou a Messias, que conversou com os caras, que deram o "ok".
– E vai ser como isso? Tem roteiro?
– No caminho te explico.

E explicou:
A banda estava de folga e queria porque queria ir surfar. Iriam para a praia, alugariam pranchas, pegariam ondas, tomariam cervejas e caipirinhas, enquanto Spencer filmaria o que lhe fosse interessante. O resto das imagens seria feito no dia seguinte, de tarde, durante a passagem de som no Pelourinho, e de noite, durante o show.

– Que praia é?
– Jaguaribe – respondeu Cássia, a cicerone do Mudhoney em Salvador, no hall do hotel. – Vai com a gente? – perguntou ela.
– Não sei – respondi.
Pela chuva que caiu de manhã, pelo vento que fazia e pelo próprio aspecto em que a praia de Jaguaribe se encontra, achei a idéia ruim. Sem falar na hepatite.
– Eles sabem surfar? O mar tá grande e mexido – perguntei.
– Sei lá se sabem surfar... Onde é que se surfa em Seattle, naquele frio, sem praia?
O filho dela, Ian, 19 anos, surfista desde pequeno, iria também, meio que pra tomar conta.
Ainda no hall do hotel, conheci Mark Arm, líder da banda. Não mudou nada. Mesmo cabelo, mesmo nariz. Spencer ficou trocando idéias com eles e mostrando o equipamento que usaria paras fazer as imagens: uma Super 8; uma HD e mais uma 16 mm.
O jornalista Chico Castro, do jornal A TARDE, chegou para fazer uma entrevista com a banda. Spencer ficou cuidando dos preparativos e pediu pra eu ir com eles.
– Bora, porra, a gente vai se divertir, um dia na praia com o Mudhoney.
Tem gente que anda com shorts e chuteiras no carro, no intuito de qualquer eventual jogo de futebol que apareça. Eu ando com uma sunga e um óculos de natação.
– Vou praticar meu jacaré, então.
Alugaram longboards e entraram no nada chamativo mar de Jaguaribe. Ian ficou tentando entrar no mar com Guy (o baixista) e com o produtor da banda, cada um em sua prancha; o baterista Dan Peters, que tocou no Nirvana, tendo gravado um dos sucessos da banda, Sliver³, ficou na barraca da praia, bebendo, de forma extremamente profissional, caipirinha e cerveja ao mesmo tempo; o guitarrista Steve Turner foi o único que ficou no hotel e Mark Arm estava em uma prancha três vezes maior que ele, tentando passar por ondas que vinham de todos os lados, sozinho, indo pra longe de Ian e, sem se dar conta, sendo levado pela correnteza.
“Esse cara não sabe onde tá se metendo”, pensei e colei nele.
Comecei nadando do lado. Veio uma onda e eu a furei. Ele não. Olhei pra trás e ele estava se deitando de novo na prancha, tentando recuperar os metros perdidos.
– Você está bem?
– Yeah.
Voltei pro lado dele. Outra onda. Eu furei, ele não. A onda passou, olhei pra trás e lá estava Mark Arm tentando deitar de novo na prancha pra continuar remando e passar da rebentação, sem saber ele que, com o mar daquele jeito, o mar todo era uma rebentação.
– Você está bem?
– Yeah.
Voltei pro lado dele. Outra onda. Eu furei, ele não. Olhei pra trás e "você está bem?", seguido de "yeah", enquanto ele tentava deitar na prancha... Naquele mar, ele não conseguia ficar deitado na prancha, quanto mais em pé.
Uns vinte minutos se passaram, e, com certeza, em terra, ninguém nos via. Nem as potentes lentes das câmeras. A correnteza nos levou pra longe. Nadando, pensei em perguntar pra ele a velha piada “você curte Cobain?”.
Disse a ele que achava que não adiantava muito querer passar das ondas, pois não teria fim. Ele concordou.
– Aqui tá bom – disse ele.
– Yeah – disse eu.
– Você vai surfar? – ele me perguntou.
– Vou pegar jacaré – respondi.
– What?
– Body surf – expliquei.
– Oh, yeah, it’s good – disse ele.
– Yeah – disse eu.
– Oh, My God... – disse ele.
– Caralho – disse eu.
E uma onda assustadoramente enorme, já quebrada, sem nenhum aviso prévio,
espumando raivosamente, vinha em nossa direção.
Sei nadar, mas não sei nada sobre salva-vidas. Só tive tempo de dizer a ele:
– Man, abaixe o máximo que você puder – e me abaixei.
Eu, sem prancha, fiquei alguns eternos segundos embaixo da onda. Tive tempo de pensar que ali não tinha pedra, o que me tranqüilizou; que era só eu ter calma que ela ia passar, que eu ia subir à superfície e respirar; e “Meu Deus, Mark Arm, com a prancha daquele tamanho, deve tá se fudendo todo”. Lembrei de uma foto dele em uma revista Bizz que eu tinha, “mesmo nariz”, pensei de novo, e lembrei de Nick Cave, que em 1996 veio fazer um show em Salvador, mas que o cancelou no dia por causa de um vatapá que não lhe caiu bem. Imaginei o show cancelado por causa de Jaguaribe; pensei no suicídio de Kurt Cobain e na bandeira de alerta do Salva-Mar, que tremulava fortemente na praia, quando entramos no mar. No turbilhão de pensamentos, ainda ouvi o salva-vidas me dando bronca: “como é que você entra nesse mar com um gringo?”. Tudo isso me embolando embaixo da onda.
Já sem fôlego, batendo as pernas pra subir o mais rápido possível, finalmente alcancei o ar. “Râââââââââââââââââââââââââââ...”, dei aquela respirada desesperada e me vi rodeado de espumas que pocavam sem parar.
“Cadê Mark, cadê Mark?”, pensava eu, já tenso.
“Râââââââââââââââââââââââââ...”, disse ele, emergindo em seguida, com duas pranchas.
– Você está bem?
– Uou...
– Você está bem? – repeti.
– Yeah... a prancha que parece que quebrou.
Estava partida, mas ainda colada por um pedaço da fibra de vidro que, em outras partes da prancha, apontava suas garras cortantes. Aquela era a pior bóia pra ele se segurar. Em uma outra onda, poderia se embolar com a prancha e se cortar gravemente.
Mandei ele se soltar da prancha, mas ele estava tenebroso em ficar solto. Disse então pra que ele se segurasse nela, mas que pelo menos se soltasse da cordinha que ligava a prancha ao seu pé e implorei a Deus pra que alguém estivesse vendo a gente e entrasse no mar com uma prancha pra tirar ele do mar. Estávamos longe. Nadando seria difícil pra ele, ainda mais naquele liquidificador em que estávamos.
– Vocês estão bem?
– Yeah – disse Mark.
– IAN – disse eu.
– Vi vocês aqui sozinhos e... Caralho, a prancha quebrou?
Sem pensar muito, Ian deu a prancha dele pra Mark conseguir sair do mar. Eu e ele voltamos nadando. A prancha quebrada foi parar na areia.
Fomos andando até a barraca, onde contamos o ocorrido para todos, que nem imaginavam o que havia acontecido.

Entre caipirinhas, um vendedor de CDs piratas ofereceu uns discos. Tinha Raul Seixas. Todo mundo explicou o som de Raul, mas eles não quiseram comprar o pirata.
Perguntaram se a gente conhecia uma banda brasileira chamada Os Brazões. Spencer já tinha ouvido falar. Perguntaram de uma outra banda chamada Liverpool.
– Brasileira?
– Yeah.
Ninguém conhecia. Disseram que era dos anos 60 ou 70.
Gostavam também de Mutantes, Sepultura e Nação Zumbi.

Depois de um tempo, fui ao banheiro. Spencer estava usando. Fiquei do lado de fora esperando, quando ele virou e, sem interromper o xixi, disse, já sobre um leve efeito do limão com cachaça:
– E Marcos Braço, tá se divertindo?
Olhei pra responder e vi Mark Arm entrando no mar de novo, com outra prancha. Mas dessa vez ficou na beirinha.

_______
(1) Even if the sun goes down (I’ll surf), de Gustavo Seabra.
(2) Smells Like Teen Spirit, de Kurt Cobain, Dave Grohl e Novoselic
(3) Sliver, de Kurt Cobain e Novoselic.

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

“Roberto Carlos mandou tudo pro inferno”¹

Uns dois anos atrás eu ia viajar de ônibus, de noite, e achei melhor levar um travesseiro. Cris tinha acabado de ganhar um muito bom, que era pequeno, porém bastante consistente.
– Não vai levar, você vai perder.
– Tá maluca? Claro que não vou perder...
– Vai perder sim, te conheço, não vai levar.
– Mas ele vai salvar meu sono...
– Não quero saber, não vai levar, você vai perder...
E as duas coisas aconteceram. Eu levei o travesseiro e o perdi. Esqueci no ônibus. Desci sem ele.

Recebi um e-mail de um cara de Vitória da Conquista, me convidando para lançar o livro por lá.
– Pago a passagem e você fica aqui em casa – disse ele.
De Salvador pra Vitória da Conquista, são aproximadamente dez horas de ônibus. Cris tinha comprado outro travesseiro igual. Até melhor.
– Mas nem a pau você vai levar dessa vez...
¬– Você acha que, depois daquela vez, eu vou repetir o erro?
– Com certeza...
– Tá maluca? Claro que não vou perder...
– Vai perder sim, te conheço, não vai levar.
– Mas ele vai salvar meu sono...
– Não quero saber, não vai levar mesmo...
– ...
– ... mas nem a pau você vai levar esse travesseiro.

No primeiro momento em que entrei no ônibus, abri a biografia de Roberto Carlos para ler. A reservei pra viagem. Peguei emprestada com um amigo que comprou o último exemplar dela no G.Barbosa, quando o biografado, através de uma ação judicial, a retirou de todas as lojas.
Já na primeira página, tomei um susto quando descobri que o autor da biografia, o jornalista Paulo Cesar de Araújo, nasceu na cidade para qual eu estava indo naquele exato momento lançar o meu livro, Vitória da Conquista. Fã de Roberto Carlos, ele começa o livro narrando a história de um show do cantor por lá, no estádio de futebol Lomanto Junior, o Lomantão. A biografia conta, com detalhes tão pequenos de Roberto, toda a sua trajetória, as tentativas pelas rádios cariocas, pelas gravadoras, pelos compradores do seu trabalho... Peguei no sono e só acordei às 2:30 da madrugada e fiquei dormindo, acordando, lendo, dormindo, acordando até que o ônibus chegou.
Peguei um táxi e me dirigi para o endereço da casa de Ian, o cara que me convidou. Nunca o tinha vista na vida. Estudante do 7º semestre de jornalismo, morava num local chamado Casa do Estudante.
Com minha mochila e uma mala com 30 livros, cheguei na porta e li uma mensagem dizendo que a porta estava aberta, que era pra eu entrar e dormir um pouco.
Eram seis horas da manhã e, dar uma dormida seria a melhor coisa a se fazer depois do acorda-dorme da viagem, quando, ocupando o mesmo tempo e o mesmo espaço no meu cérebro, me vieram as mensagens:
“Ainda bem que trouxe o travesseiro” e “PUTAQUEPARIU, esqueci o travesseiro no ônibus”.
Fiz um rápido retrospecto dos acontecimentos e lembrei que desci do ônibus sem ele.
Dei adeus ao sono gostoso e fui em busca do travesseiro perdido. Jamais voltaria pra Salvador sem ele.

Com o bilhete da passagem na mão, achei o telefone da Camurujipe, empresa que me levou. Saí do local pra não acordar ninguém, liguei e “aperte um pra aquilo, dois pra aquilo outro, três pra num sei o quê, quatro, cinco...”, até que apertei o de falar com um ser humano e fiquei ouvindo a música que algum ser humano da Camurujipe achou que era adequada pra fazer o cliente esperar. E esperei, esperei, esperei, e, enquanto esperava, saí andando pelas ruas, pensando onde estaria o travesseiro, no que iria ouvir quando dissesse “esqueci o travesseiro”...
Com o celular no ouvido, já na avenida Siqueira Campos, escutando a maldita música da Camurujipe, vendo os conquistenses fazendo exercícios, outros indo pra escola, me dei conta de que era pouco mais de seis da manhã, que não deveria ter ninguém trabalhando àquela hora. Não na Camurujipe. Ainda tentei um telefone da Camurujipe de Vitória da Conquista, que achei em um catálogo de um posto de gasolina, mas deu no mesmo. Teria de esperar até as oito pra começar a tentar o resgate. Nem lembrava mais do lançamento do livro. Voltei pra Casa do Estudante. A porta continuava aberta.
– E aí, rapaz, tava onde? Susto da porra. Quando acordei e vi que você não tava no beliche, achei que tinha desistido de vir. Só me tranqüilizei quando vi a mochila. Já tomou café? Vamos nos arrumar pra sair, tem uma entrevista na televisão e depois na rádio – disse ele sem parar, estendendo a mão pra me cumprimentar.
– Você que é Ian? E aí, tudo bem? Venha cá, me diga uma coisa... sabe onde teria uma loja de travesseiros?
– Hein?

No ônibus, no caminho pra TV da UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia –, consegui meu primeiro contato imediato com um ser vivo da Camurujipe:
– O ônibus foi pra garagem pra ser lavado. Tem que ligar pra lá.
Liguei pra garagem.
– Camurujipe, Helena, bom dia?
– Dona Helena, tudo bem? – ela tinha uma voz de mais idade.
– Tudo.
– Olhe só, eu vim de Salvador no ônibus das 22 e esqueci um travesseiro dentro dele. Eu estava na poltrona 34. Teria como ver se ele está lá? Viajo amanhã, no ônibus do meio-dia. Na rodoviária mesmo eu pegaria ele de volta.
– Vou olhar pra você. Pode ligar daqui a 20 minutos?

Chegamos na UESB e fui dar uma entrevista pra um jornal que vai ao ar, pela TV aberta, ao meio-dia. Fiz a entrevista pensando no travesseiro, na minha reputação em casa e assim que acabou, liguei pra dona Helena. Ela me pediu vinte minutos, já tinham se passado quase uma hora.
– Ô, menino, ainda nem fui lá, me perdoe... apareceu um problema aqui...
“E você quer problema maior que esse, dona Helena?”, pensei.
– Ah, tá... mas assim que puder, dona Helena, veja isso pra mim, por favor...
– Me ligue depois do almoço.
– Dona Helena, meu casamento depende desse travesseiro – implorei.
Ela riu.

Fomos pra rádio 96 FM, onde dei outra entrevista pensando no travesseiro e depois fomos conhecer a livraria onde seria o lançamento do livro.
Letras e Prosa. Gostei muito. Estava em promoção e tinha muitos bons livros. Livros da editora Conrad com 35% de desconto e da Cosac Naify com 40%.
Depois do almoço, liguei de novo. Não era dona Helena. Era um cara:
– Seguinte, amigão, eu esqueci um travesseiro no ônibus que...
– Rapaz, já procuraram seu travesseiro e não acharam, não...
– Hein?
– Tava lá não.
Fiquei puto, mas não demonstrei. Naquele momento, aquele cara nunca poderia virar meu inimigo.
– Dona Helena tá aí?
– Ainda não voltou do almoço, não – respondeu ele.

O lançamento do livro estava marcado pras 19 horas. Marcamos de ir para a livraria às 18. Ian estava nervoso pelo evento:
– E aí, man, será que vai dar gente?
– Relaxe...
– Eu divulguei nas universidades e em outros locais, você falou no blog, deu entrevista na rádio e televisão... será que vai dar gente?
Até as 15 horas, eu estava mais preocupado com dona Helena que não me atendia do que com o lançamento. Até pensei, fazendo promessa “prefiro que não dê ninguém, mas que eu ache o travesseiro”.
Ninguém atendia na Camurujipe. Pela voz incisiva do cara que atendeu na hora do almoço, dizendo que o travesseiro não foi achado, achei a coisa meio estranha. O cara foi lá na poltrona 34, olhou e não achou?! Outro indício que deixa a coisa mais misteriosa foi que, às 17 horas, já sem esperança, liguei e, milagrosamente, dona Helena atendeu:
– Camurujipe boa tar/
– Dona Helena?
– Ricardo?
– Sim...
– Estou com o travesseiro. Achei ele – disse ela, empolgada pela vitória.
Tenho certeza de que dona Helena passou esse tempo todo longe do telefone executando um corajoso resgate. Marquei de pegar o travesseiro no dia seguinte, quando fosse viajar de volta pra Salvador. Marcamos meio-dia e cinco, no guichê da Camurujipe.
– Acharam o travesseiro? – perguntou Ian, quando desliguei o telefone.
– Acharam – respondi.
– Massa. Que sorte, hein?
– Pois é... E aí, será que vai dar gente?

A livraria tem dois ambientes. Um interno, onde ficam os livros, e um externo, onde ficam as mesas, as cadeiras, o bar e o espacinho onde os músicos se apresentam. Contra a minha vontade, o espaço destinado a mim não era ao lado dos livros, mas do lado de fora. Argumentei, mas o dono disse que a livraria era pequena e que iria ficar muito apertado.
Ian, além de promover o evento, também faria a apresentação musical. Voz e violão. Durante a tarde, enquanto eu estava aflito com o travesseiro, ele ficou no quarto ensaiando algumas músicas. Tocou várias de um cara chamado Chuck Ragan.

O bar foi enchendo. Pessoas bebendo, conversando... Um cara na faixa dos cinqüenta e poucos, com jeitão de quem foi hippie nos anos 70, chegou e pegou um livro. Ficou em minha frente. Leu, leu, leu, leu, leu... quarenta minutos depois, devolveu.
– Muito gostosa a leitura. Flui, né?
– É?
– É. Flui muito bem.
– Então é.
– Parabéns.
– Valeu.
Depois Ian disse que o cara era professor dele. Ficou pirado que ele não comprou.
– Ainda por cima ele dá aula dançando – disse ele.

Uma outra mulher, numa mesa do fundo, também pegou um e leu durante um bom tempo. Ela bebia cerveja enquanto lia, e eu fiquei torcendo pra ela derramar, sem querer, só um pouquinho de cerveja no livro. Depois de quase uma hora, ela o devolveu, intacto:
– Adorei, seu texto prende muito a gente. São coisas simples mas que fazem refletir, né?
– É?
– É. Parabéns, de verdade, boa sorte nessa jornada, viu?
– Viu.

Cris ligou pro meu celular:
– E ai, vendeu algum livro?
– Ainda não, mas já ganhei cada elogio da porra...

No fim das contas, peguei 10 horas de ônibus, cheguei de manhã, passei o dia lá, vendi dois livros, peguei mais 10 horas de ônibus e voltei.

O cara que fez o livro de Roberto Carlos devia tá pior. Roberto Carlos é um otário, pois nem quis dialogar com o autor. A biografia foi fruto de 15 anos de pesquisa intensa, 200 entrevistas exclusivas, investimento, tempo, dedicação e que conta, de uma forma muito tranqüila e respeitosa, com detalhes tão pequenos de Roberto, toda a sua trajetória: as tentativas frustradas pelas rádios cariocas, pelas gravadoras, pelos apreciadores do seu trabalho...

Um livro foi vendido pra uma mulher que hora nenhuma pegou no livro e que estava levemente embriagada. Isso foi aos 47 do segundo tempo. O bar e a livraria fechando, todos pagando a conta, nenhum livro vendido, quando ela passou e disse:
– Sabe de uma coisa, vou levar um livro seu.
E levou.
O outro livro quem comprou foi Ian.

Cheguei na rodoviária às 11:30. Meu ônibus sairia 12:20 e tinha marcado com dona Helena às 12:05, que era o tempo dela sair do escritório da Camurujipe, atravessar a rua e chegar na rodoviária pra entregar meu travesseiro.
Fiquei esperando na frente do guichê e achei que dava tempo de ir ao banheiro fazer xixi e voltar. Estava apertado. Quando voltei, vi a mulher do guichê já com o travesseiro na mão.
– Dona Helena já passou aqui?
– Agorinha. Acabou de deixar aqui. Você é? – perguntou ela, olhando pro nome anotado por dona Helena e esperando a minha confirmação.
– Ricardo. Cadê ela?
– Já foi... saiu apressada.
Tentei achar dona Helena, mas não consegui. Valeu, dona Helena.

Dois livros vendidos dão 60 reais; menos 25 reais de um livro que estava na promoção da Conrad, sobraram 35 reais; menos o táxi da rodoviária até a Casa do Estudante, 25 reais; menos cinco passagens de ônibus por Conquista, 15 reais; menos 13 reais de biscoito e água pela estrada, lucro de 2 reais. Livro é lucro sempre. Só Roberto Carlos que não acha.

Ainda teve um travesseiro a salvo, que Cris, quando soube do acontecido, jurou que, na próxima viagem, mas de jeito nenhum eu levaria o travesseiro de novo.
Vamos ver...

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(1) Roberto Carlos mandou tudo pro inferno, de Ronei Jorge.

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Alô. alô, W(C)/Brasil... eu vou chamar o síndico¹

Não conheço quase ninguém que vá a reunião de condomínio. O aviso fica no elevador semanas antes, avisando da reunião que vai acontecer em uma quarta-feira à noite.
– Aonde que eu vou pra essa reunião? Bem na hora do jogo do Baêa – disse um amigo meu, ao subirmos o elevador do seu prédio. – Por isso que ninguém vai – completou ele.
Realmente, reunião de condomínio deve ser extenuante. O cara já chega acabado do trabalho, saiu de casa cedo, enfrentou o transito, a violência, os jingles dos prefeitos... Tudo que ele menos quer é uma reunião de condomínio.
“Os outros que resolvam”.
Se Tim Maia fosse o síndico do meu prédio, eu iria pra todas as reuniões.
Em todo aviso de reunião, tem no final da folha algo como “quem não vier, vai ter que aceitar o que decidiu a maioria dos que vieram”. É a democracia. Depois é um pau da porra. A gordinha do 802 ficou pirada com o aumento da taxa, pois resolveram reformar o prédio. Foi reclamar com o síndico.
– Me desculpe, minha senhora, mas, na última reunião, os que queriam a reforma ganharam por 2 x 1 dos que não queriam a reforma. Se a senhora tivesse ido para a reunião, teria sido, pelo menos, empate.
E assim começam as brigas. Soube de um caso de comemoração por parte de um recém-eleito a síndico. Contratou banda, churrasco na piscina, cerveja, colocou uma faixa com “Seu Fernando do 504 é nosso síndico”, chamou os amigos, os eleitores...
Alguns vizinhos, provavelmente os que nem sabiam de eleição alguma, foram reclamar com o síndico pela zoada.
– O síndico agora é ele – gritou o que perdeu, pela fresta permitida do “pega-ladrão” de sua porta.
A coisa terminou em pancadaria na piscina e polícia na porta.

E Léo Kret se elegeu pra vereador(a). Mais que isso, foi o quarto vereador(a) mais votado. Cada povo tem o Clodovil que merece. O número de candidatos-pastores também cresceu muito. Na próxima eleição, a câmera de vereadores vai ter Compadre Washington, Beto Jamaica, Xandy e Padre Pinto. Carla Perez vai ser a presidente da casa. De qualquer forma, é melhor um Léo Kret do que um Valdenor Cardoso (atual presidente da casa que não conseguiu se reeleger).
Imagino como foi a festa de comemoração de Léo Kret. Pelo menos tento imaginar. Todo mundo requebrando e gritando “AAAaaahhhh”. Um amigo que trabalhou na campanha do DEM disse que, na edição do vídeo de Léo Kret, toda a equipe achou melhor tirar o gritinho do final, isso no início da campanha, mas que o próprio presidente da Propeg, o publicitário Fernando Barros, mandou colocar o gritinho. O cara é bom, elegeu Léo Kret. Duda Mendonça é melhor ainda, que, com sua agência, já elegeu Maluf, Collor, Mário Kertész (ou Mário Kret, se preferir, pela fase velho-tarado-babão), Lula e tantos outros. Desconfio que Duda Mendonça é o culpado de tudo. Segundo o próprio, em seu site, em um texto falando sobre ele mesmo, ele diz que “não existe povo eleitor e povo consumidor, o que existe é povo”, ou seja, cerveja. Políticos são produtos como cerveja e sabão em pó, com a diferença de que, se você não gostar, você só pode devolver quatro anos depois.

O jornalista Mario Sergio Conti, em seu livro Notícias do Planalto, descreve na página 92:
Collor foi a Itparica, na Bahia, desembarcou na praia de Mar Grande e perguntou a um senhor de cabeça toda branca:
– Governador, onde fica a casa de Duda Mendonça, por favor?
Antonio Carlos Magalhães indicou-lhe o caminho e depois comentou: “Esse filho do Arnon sabe das coisas: veio atrás do melhor homem da propaganda política na Bahia”.


Mas Duda Mendonça não conseguiu vender Antonio Imbassahy. Alguns amigos meus que votariam nele mudaram de lado no último dia por ele aparecer em quarto lugar nas pesquisas, sem chances de vitória.
Pesquisa é outro problema das eleições. Elas tiram o direito do eleitor de votar em quem ele acredita ser o melhor. Quando eu for prefeito de Salvador, vou proibir as pesquisas. Pesquisa é o mal número um da democracia eleitoral.

Nunca na história deste estado, ACM VÔ teve de escolher um candidato para apoiar no segundo turno que não fosse o do seu partido, pelo simples fato de nunca ter havido na Bahia um segundo turno sem o PFL-DEM. É a primeira vez, e ACM, dessa vez o NETO, vai ter de responder sobre quem vai apoiar na segunda etapa da eleição: João Henrique (PMDB) ou Pinheiro (PT).

A baixaria nas campanhas vai ser digna da briga dos vizinhos acima. Quem comanda a campanha de João Henrique é o publicitário Maurício Carvalho, ex-Propeg e ex-ACM VÔ, hoje com Geddel, que por sua vez, já foi anti-Lula e pró-ACM VÔ, sendo hoje o contrário, e apoiando João Henrique, que é pró e contra qualquer coisa que ele mandar.

O ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) aparenta ter todas as semelhanças e características de ACM VÔ na busca pela concentração de poder. Está em um ministério e quer eleger o seu prefeito (na eleição passada, João Henrique era do PDT). O vejo como candidato a senador em 2010, ao mesmo tempo que tentará eleger o governador ou apoiará a reeleição de Wagner (PT). Tudo pelo investimento a longo prazo. E aí começa mais um ciclo baiano.

Meu avô Pacífico Ribeiro tem um epigrama que ele fez no final dos anos 60, época em que a Bahia era dos “Luíses”. No governo tinha Luís Viana Filho (governador), Luís Prisco Viana (secretário de comunicação), Luís Navarro de Brito (educação), Luís de Carvalho (procurador)... Eram no total seis Luís.

No governo do Luís, só de Luís já tem seis: se a moda vem de Paris, vai ter Luis XVI.

Outro dele que acho que tem a ver com o atual clima, é um que fala sobre o golpe militar e a criação da ARENA – Aliança Renovadora Nacional –, partido criado em 1966, no qual estava Antônio Carlos Magalhães. O partido foi feito para servir de base aos interesses da ditadura.

Com os generais de pijama², Ademar, Pinto e Lacerda, saímos do mar de lama e entramos no mar de merda.

“Mar de lama” foi o termo criado por Carlos Lacerda ao falar do governo de Getúlio Vargas. Como “merda” não podia ser dito, meu avô mudou o epigrama, sem mudar o conteúdo, deixando:

Com os generais de pijama, Ademar, Pinto e Lacerda, saímos do mar de lama e entramos no mar de ARENA.

Ontem teve festa no condomínio. Enquanto a conquista do poder for motivo de comemoração, continuaremos sem motivos pra comemorar. Houve muita música, muita cerveja, muitos eleitores e muitos mendigos no bairro do Rio Vermelho festejando a ida de Pinheiro ao segundo turno, assim como na AV. Vasco da Gama, onde os PMDBistas celebraram a ida de João Henrique.
Foi barulho a noite toda. Eu não soube pra quem reclamar.



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(1) W/Brasil, de Jorge Benjor.
(2) Ademar de Barros, Magalhães Pinto e Carlos Lacerda.