Segunda-feira, Novembro 16, 2009

O fim está próximo

É com grande pesar (e grande prazer) que anuncio que este blog está com os dias contados.
Ele irá se desintegrar em: 05 dias.

Agradeço a todos pela atenção e participação nesses cinco anos de história(s).
Até a próxima.


...

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

A política e a boa vizinhança

Mês passado entrei no elevador e me deparei com uma folha de papel colada na parede com o título em letras maiúsculas: CARTA ABERTA AOS CONDÔMINOS.

Dizia a carta:
O condomínio encontra-se legalmente sem síndico, subsíndico e conselheiros fiscais por ter expirado o mandato no dia 14 de agosto. Após duas reuniões, nos dias 13 e 26 de agosto, por falta de quorum não foi possível consumar a eleição. Esta situação inédita traz uma série de problemas para todos nós: não será possível pagar as contas de água, de luz, telefone, manutenção e, inclusive, a folha de pagamento dos funcionários, gerando encargos e transtornos.
Nós, condôminos presentes a duas reuniões, fazemos um apelo veemente ao bom senso de todos quanto à necessidade de comparecimento à próxima assembléia, nesta segunda, às 20h.
Esta simples atitude será suficiente para decidir o futuro do condomínio.”

Embaixo de tudo: seis assinaturas. Noventa moradores não foram às ultimas reuniões.
Na pauta: a eleição de síndico, subsíndico e conselheiros fiscais.
Analisei que penso em morar aqui por mais três anos e que não custava nada eu ir. O dia chegou e faltando meio hora, cansado, cheguei a comentar com Cris que eu não sabia se realmente iria, mas às 19:50 eu já estava esperando o elevador. Ele chegou e uma mulher meio riponga, faixa dos 40, já estava dentro dele. “Será ela a pianista?”, pensei. O “P” já estava apertado. Ela percebeu que eu não apertei nenhum. Enquanto o elevador descia, ela rompeu o silêncio:
– Vai pra reunião?
– Vou...
Ela sorriu de boca fechada e disse:
– Eu também.
Ficou um breve silêncio e ela perguntou:
– É a sua primeira vez?
Respondi que sim e o elevador chegou no “P”.
– A minha também.

Entramos no salão de festas, onde haviam dezenas de cadeiras espalhadas. Nós éramos o sexto e o sétimo a chegar:
– Opa, o comunicado deu resultado, já tem mais gente – disse uma menina meio gripada, faixa dos 28, com um lenço na mão.
– Boa noite...
– Boa noite...
A riponga sentou na frente. Por instinto escolar, fiquei mais ao fundo. A gripada e a senhora magra que estava sentada ao seu lado voltaram a conversar:
– E como eu tava dizendo, no elevador ninguém dá bom dia, você passa no corredor e ninguém dá bom dia... Até os funcionários reclamam... – reclamava a senhora magra sobre a falta de educação das pessoas do condomínio.
– É um absurdo – consentia a gripada.
– É mais que isso, não dar bom dia, boa tarde ou boa noite é como desfazer a existência do outro... – filosofou.

Mais duas pessoas chegaram e descobri que o quorum mínimo para a eleição era de 12 pessoas. Quem não tiver em dia no pagamento pode opinar, discutir, debater, só não tem direito a voto.

O síndico e a subsíndica chegaram e se dirigiram à mesa diretora. Três cartões foram distribuídos: um verde, um amarelo e um vermelho. Um senhor de chapéu de vaqueiro e camisa de botão, com apenas os dois primeiros botões de baixo fechados, barriga protuberante, faixa dos 55, chegou e, no meio das dezenas de cadeiras espalhadas, escolheu sentar ao meu lado.
– Boa noite.
– Boa noite.
Já éramos doze.
O síndico, faixa dos 40 com aparência jovial, fez uma breve introdução falando das contas, do que foi feito em sua gestão, das reformas e de que, segundo o estatuto do condomínio, era preciso outra eleição.
Uma mulher de preto, faixa dos 55 com um olhar de 65, levantou o braço e disse:
– Já que o senhor falou das reformas, eu queria dizer que a pintura feita nas barras de ferro das varandas ficou péssima, pingou tinta dentro e ainda não foi feito o reparo...

A subsíndica se adiantou e disse que aquilo já havia sido debatido e explicado, e que aquela reunião em que estávamos era exclusivamente para a eleição, que depois marcaria outra, já com os devidos eleitos, para que só assim providencias possam ser tomadas. Enquanto a sub foi falando isso tudo, a de preto ficou dizendo:
– Porque eu acho um absurdo sujar a varanda. E depois de uma reforma, é até irônico... Quer dizer, faz uma reforma pra ficar mais bonito, PAGA CARO POR ISSO (nessa parte ela elevou o tom de sua voz) e o negócio fica pior... Um absurdo...

Comecei a achar um absurdo a reunião ser naquela sala. Um eco dos infernos. Achando uma brecha no silencio que surgiu depois dos ecos de “urdo, urdo, urdo” da palavra “absurdo”, dita pela de preto, o síndico se adiantou, querendo se livrar logo do seu mandato:
– Bom, gente, já temos doze pessoas, vamos ser práticos e nos concentrar na eleição. A primeira votação será para escolher quatro pessoas para o conselho fiscal, algum candidato?
Ninguém levantou a mão. Todo mundo se entreolhou. A sub então começou a falar sobre o que um conselheiro fiscal fazia, que era só conferir as contas e os orçamentos dos serviços prestados ao condomínio, que era um trabalho pra dividir por quatro pessoas, que era importante e blá, blá, blá, e uma mão se levantou.
– Ah, que bom, como é seu nome?
– Fulana de tal.
– Seu apartamento?
– 206, bloco C.
A sub anotou o nome dela.
– Vamos lá gente só faltam três – tentou animar.
Ninguém levantou a mão e com muita retórica, a sub, faixa dos 34, roupa de professora universitária bem comportada, reforçou a simplicidade do trabalho do conselho fiscal, dizendo que o condomínio tinha um administrador que resolvia as coisas do dia-dia, o que facilita muito a tarefa e falou sobre a importância desta, que ela estava diretamente ligada a valorização dos nossos imóveis e que ela sentia muito, mas que mediante a situação, um de nós TERIA de aceitar os cargos. Pelo estatuto, os atuais conselheiros não podiam mais, entre outras coisas, assinar os cheques.

Comecei a fazer as contas e analisar as pessoas ao meu redor e fiquei seriamente com medo de sobrar pra mim. Éramos dozes; menos a sub e o síndico, dez; menos os quatro que formariam o conselho fiscal, seis; menos a gripada e a senhora magra, que me olhavam o tempo todo esperando eu levantar a mão, quatro; menos um casal de idosos que estavam atrás de mim; dois... Imaginei a frase “um de vocês vai ter de ser o síndico e o outro o subsíndico”, sendo dirigida pra mim e pro meu vizinho de cadeira e pensei que o melhor a fazer era levantar logo a mão. Hesitei um segundo e três mãos se levantaram: a de meu vizinho de cadeira, a do marido da senhora atrás de mim, e a da senhora da varanda suja. A gripada olhou pra mim e fez uma cara de “deu mole”. “Dei mole”, pensei, ao perceber o erro em menosprezar os rivais. Todos fizeram suas contas...
A sub perguntou nome e apartamento dos três, conferiu se estavam em dia e perguntou para todos:
– Quem concorda que Fulano de Tal, Beltrano de Tal, Sicrano de Tal e Varanda Suja são os novos conselheiros fiscais do condomínio levanta o cartão verde.
Todos concordaram. Ela agradeceu, falou mais um pouco dos afazeres do conselho e prosseguiu:
– Vamos começar a eleição de síndico e subsíndico agora – disse ela.
Um arrepio passou por mim. “Como é que você desce como um simples morador, inclusive quase não foi pra reunião, e volta síndico?”, perguntaria Cris, revoltada e com razão.
Tive a idéia de aproveitar a moda e defender um terceiro mandato, dizendo que as regras não podem estar acima do bom senso... Depois tive outra idéia mais executável: dar o golpe do celular, fingindo que ele tocou:
– Um minutinho só – diria eu para os que estavam ao meu redor, me afastaria aos poucos e nunca mais retornaria. Enquanto pensava seriamente nessa possibilidade, a sub subitamente se lembrou:
– Ih, faltou escolher um suplente pro conselho fiscal, tá no estatuto.
“Viva as regras”, pensei.
– Ah, é – disse o síndico. – Algum candidato?
– Eu – disse eu.
A gripada e a senhora sorriram. O síndico pediu meu nome, apartamento e perguntou:
– Quem concorda que o senhor Ricardo Cury é o novo suplente do conselho fiscal?
Meu vizinho de cadeira, futuro colega do conselho, olhou pra mim de cima a baixo, lançou aquele olhar meio de lado e levantou o cartão verde, como todos os outros.
– O suplente é só para o caso de nenhum dos quatro estarem disponíveis – explicou o síndico.
Sem cerimônia, a sub seguiu em frente:
– Agora temos de escolher o síndico e subsíndico e, opa, vem chegando mais gente ali – disse ela, apontando para o fundo do salão, de onde surgiam quatro condôminos. Recorde absoluto.
– Boa noite.
– Boa noite.
– Boa noite.
– Boa noite...
Fiquei puto. Começou a aparecer gente. Em dez minutos pulamos de 12 pra 20 pessoas. Reconheci um. Tenho da minha varanda vista privilegiada da quadra de futebol e sempre assisto os clássicos e os palavrões gritados por ele para todo mundo ouvir. Reconheci o problemático. Chegou de camisa de time europeu. E como no baba, já chegou dividindo. Enquanto o síndico fazia um breve resumo do que já foi dito, feito e eleito até o momento para os recém chegados, o do baba levantou a mão e o interrompeu, falando mais alto que todos:
– Antes de começar eu gostaria de fazer uma observação.
Fez-se um silêncio e eu consegui contar cinco “ão, ão, ão, ão, ão” do eco.
Ele prosseguiu:
– Semana passada teve uma confusão na portaria que eu acho que é desnecessária, entendeu? Porque a gente sempre jogou bola, sempre trouxe gente de fora e nunca teve problema nenhum, entendeu? Aí agora tem essa regra de cada morador só pode ter dois convidados eu acho errado, entendeu?

Incrível, não falou nenhum palavrão. No baba é o tempo todo, em todas as jogadas. Se alguém do seu time fizer merda é “va tomar no c...”; se o time adversário marcar falta é “falta é seu c...”; se ele perder um gol é “poooooorraaaaaa, caralhooo”; se fizer gol é “golaço, seu otário”.
Já analisei o ambiente e posso da minha sala jogar um ovo bem no meio da quadra com facilidade sem levantar suspeita. Ainda vou fazer isso. Vai ser minha primeira medida como membro do conselho fiscal.
Meu vizinho de cadeira e colega do conselho foi um juiz mais sensato e deu um cartão vermelho pra ele:
– Ô, amigo, a gente não pode desviar da pauta, pois assim a reunião vai demorar...
– Não, eu sei, tá certo... Mas é que a gente tem que falar, entendeu? Porque eu realmente não vejo motivo para não poder trazer gente de fora pra jogar bola, entendeu?
E o burburinho de ecos começou. A sub disse que aquilo não era uma regra nova, que é uma regra do estatuto do condomínio, com a diferença de que agora ela estava sendo cumprida... No meio da conversa, uma outra mudou de assunto:
– E essas multas pras infrações, quem decidiu aqueles valores?
A sub teve um orgasmo:
– Ah, tá vendo? É isso que dá não aparecer nas reuniões; uns tomam as decisões por outros...
Muitas pendengas precisavam entrar na pauta. Moradores que andam na garagem em velocidade maior do que a permitida; crianças que jogam bola onde não podem; vizinhos que não educam seus cachorros e não limpam o que eles fazem...
Enquanto as discussões se sucediam, meio que à francesa, Varanda Suja se levantou e foi saindo. Percebi que ela lançava o seu olhar 65 pra mim enquanto andava. Veio em minha direção:
– Tudo bom? Sabe o que é? – cochichou. – Você não quer trocar comigo, não? É porque eu pensei que não ia ter mais gente e tava com medo de sobrar pra ser síndica ou subsíndica... – disse, como se estivesse me fazendo uma confissão, agora com um olhar triste e suplicante.
Fiz um olhar mais triste ainda por não poder ajuda-la e disse:
– Poxa, não posso... eu viajo muito, quase nunca tô aqui... – menti.
Ela endureceu de novo seu olhar e saiu.

O eco e a confusão só pioravam. Agora uma mãe nos fazia de terapeutas, dizendo que ter de pagar um salário mínimo de multa porque o filho dela jogou bola onde não devia era um absurdo, que ele era uma criança, que ela era solteira, que trabalhava o dia inteiro, saia oito chegava oito, que educar era difícil...
A gripada se levantou de fininho e foi saindo. Achei melhor dar o golpe do celular e também fui embora. Nem esperei a eleição principal.

Esperando o elevador, a senhora magra passou por mim:
–  Olha lá o conselho fiscal, hein? Confiamos em você...
Dei uma risadinha e disse sem falsa modéstia:
– Eu sou apenas um suplente...
– Mas isso é muita responsabilidade... Tô de olho – disse séria, enquanto ia em direção ao seu elevador.
Nem deu boa noite.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Jesus, don’t cry¹


Sexta-feira passada, dia 18 de setembro, aconteceu o Rosh Hashaná, o ano novo judaico. Dali a dez dias acontecerá o Yom Kipur, outra data comemorativa da religião. Esse período é chamado de “Os grandes feriados” e é a época mais importante para os judeus, pois é onde podem arrepender-se dos pecados com o perdão de Deus.

Oito meses e vinte dias antes, no período do ano novo cristão, enquanto tomava o café da manhã para seguir viagem de volta pra Alemanha, a televisão da lanchonete mostrava tomadas aéreas com imagens cinematográficas de tanques israelenses voando pelo deserto em direção a Palestina.

Sou neto de uma árabe e de outra judia. A judia é Sara, a árabe é Maria.
Fui batizado com um ano, fiz primeira comunhão com nove e aos 10 passei a freqüentar a hebraica. Lá, aconteciam as machanot (pronuncia marranot), acampamentos que duravam cerca de quatro dias, onde crianças e adolescentes formavam equipes que participavam de diversas atividades, entre elas: provas de conhecimentos gerais, provas de resistência e provas esportivas.

Também tínhamos aulas de geografia e história:
– No mapa, o Oriente Médio está aqui e aqui está Israel. Tooooodos esses países que cercam Israel são nossos i-ni-mi-gos...

E tínhamos aulas de guerra. Com um cabo de vassoura, crianças e adolescentes aprendiam a rastejar na floresta, enquanto o inimigo não vem.
Para a noite, um cronograma de sentinelas era feito. Do escurecer até os primeiros raios de sol, uma dupla por hora estaria vigiando a bandeira de Israel, pois eles podem atacar a qualquer hora.
“Eles” são pessoas que não estão no acampamento, mas que a qualquer noite poderão fazer um ataque. Geralmente era no penúltimo dia. O clima é tenso. No silencio total, só com o barulho das cigarras, acompanhado de mais uma pessoa, primeiro a gente percebeu uns vultos por detrás da cerca viva do sítio:
– Vá lá ver.
– Oxe, eu não, vá você.
– Vamos os dois.
Chegando perto, ouvimos sussurros e em seguida veio o anuncio de que estávamos sendo realmente atacados. Bombas caiam do céu. Fogos anunciavam o ataque. Voltamos gritando em pânico, acordando a casa toda:
– Ataque, ataque, ataqueeeeeeeeeeee...
Todo mundo acordava e ia para fora da casa, preparar as estratégias emergenciais de defesa. Eles não podiam pegar a bandeira de Israel. Caso isso acontecesse, toda a nossa comida, nossos colchões, travesseiros e roupas seriam deles, e seríamos obrigados a servi-los durante todo o dia seguinte como seus escravos. Precisávamos defender Israel. Só não valia bater na cara, mas voadora na costela e todo o resto estavam liberados. A bandeira ficava no mastro, no meio do sítio. Os menores a cercavam, formando a ultima linha da batalha.
– Se alguém chegar perto, vão em cima sem pena; mordam, puxem o cabelo, arranhem, belisquem, mas não deixem eles pegarem a bandeira de Israel.
A batalha durava horas.

Voltamos pra casa de Lu e Mischael em Korchenbroich e da lá fomos juntos passar o reveillon em Berlim. Mischael é um alemão que fala português muito bem, passando a ser o melhor guia turístico possível pra um casal de brasileiros por lá.

Nos levou aos lugares obrigatórios como o Muro, tendo do lado comunista, de frente pro muro, um enorme painel da Macintosh cobrindo por inteiro um prédio histórico. Nos levou também ao monumento em lembrança aos milhões de judeus mortos e feridos (por dentro e por fora) indiscriminadamente pelos nazistas na Segunda Guerra, onde escrevi, raspando na neve, a minha mensagem de paz, e, meio que sem querer, nos levou ao lugar onde Christiane F. ficava; esperando o metrô na estação Zoo, ele se lembrou dessa preciosa informação e nos deu a notícia:
– Já ouviram falar em Christiane F.? Era essa estação que ela freqüentava – disse ele, ressalvando que o nome do livro é Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, que quer dizer “as crianças da estação Zoo”. Contamos a ele que no Brasil essa frase foi traduzida para “Eu, Christiane F. 13 anos, drogada e prostituída”. Todos comentaram que leram o livro na adolescência. Cris inclusive comentou que ficava pirada com um professor que a chamava de Cristiane S., num trocadilho com a primeira letra do seu sobrenome. Fiquei lembrando dos cenários, tentando visualizar as cenas, mas Mischael disse que a estação estava reformada.

Na tarde do dia 31 de dezembro fomos visitar as Portas de Brandemburgo. Era por ali que um ano entraria e o outro sairia. Às vezes, Hitler também aparecia por lá, para dar uma alô pra sua tropa.
– Cheguem cedo, pois a polícia vai fechar o acesso às 20h – nos informou uma mulher que montava sua barraca de bebidas e comidas.
Ela também nos informa que a previsão é de um milhão de pessoas na praça e que a temperatura vai estar em -12ºC.

Chegamos às 19:40 e a praça já estava praticamente tomada. O problema do frio de 12º negativos nem é o frio propriamente dito, mas a completa impossibilidade de se coçar. Se aparecer uma coceirinha nas costas, nem adianta pedir pra alguém. A barreira de camisas e casacos é intransponível. Cris até tentou me ajudar dando uns tapas, mas nem fazia cócegas.
Às 22, Lu e Mischael tiveram de voltar pro hotel. Durante todo o dia ela esteve febril e àquela altura da noite, do frio e do cansaço, era melhor que passasse a virada do ano no quarto, com imagens ao vivo da praça. Eu e Cris ficamos.

Bandas adolescentes se revezavam no palco, fazendo o brochante playback. Pensamos em ir na roda gigante que girava alto no meio da praça mas Cris disse, com razão, que não agüentaria o frio lá em cima. No começo da viagem o frio é gostoso, mas depois do quinto dia, já vai enchendo o saco e naquele momento eu só desejava de volta o inverno rigoroso de Salvador, quando 18º fez todo mundo sair cheio de casaco, anos atrás.

No frio, a vontade de fazer xixi aumenta estupidamente e eu não conseguia mais segurar. A fila dos banheiros químicos davam voltas. A solução teria que ser o banheiro dos corajosos. Na praça tem um jardim com muitas arvores e naquele momento, muita neblina. O processo é árduo. Primeiro você tem de tirar a luva, pois com elas é impossível manusear com desenvoltura tantos panos. Depois disso é uma contagem regressiva para que sua mão não congele. Começava ali a II Guerra dos Farrapos. Nesse tempo, levantei três casacos, três camisas, achei o cinto, tirei, abri a braguilha, abaixei a calça jeans, a calça de baixo, a ceroula, a cueca, procurei o refém que tava lá encolhido e o salvei. Depois de vinte minutos a vontade de fazer xixi voltou e no pesar da balança achamos que seria mais divertido comemorar a virada do ano pelas ruas da cidade. Fomos procurar a saída e nos deparamos com uma barreira policial contendo uma multidão que desesperadamente queria entrar enquanto nós dois estávamos desesperados pra sair. Um policial de olho azul empurrou violentamente um cidadão de olho azul, me lembrando os filmes de guerra e as festas de Salvador.
– Isso aqui é igual ao reveillon do Farol da Barra – comentei com Cris.
Naquele momento, Daniela Mercury tocava de graça no Farol da Barra enquanto a SS (Sangalo e Saulo) cantava pros brancos, na festa Enchanté.

Conseguimos sair da praça, mas, sem saber, estávamos entrando na guerra. No dia seguinte Mischael nos explicaria que os berlinenses gastam cerca de 500 mil euros apenas com fogos de artifício para o dia 31 de dezembro. Além dos fogos da prefeitura, cada um tem o seu kit homem bomba. Andando pelas ruas, nos deparamos com homens, mulheres, crianças e adolescentes, grande parte embriagada, cada um com o seu impressionante arsenal de explosivos na mão. Foguetes enormes, bombas gigantes e todos com mochilas e sacolas penduradas, com mais munição. Começamos a perceber que os fogos eram jogados indiscriminadamente e que a qualquer momento poderíamos ser seriamente atingidos. A guerra de espadas de Cruz das Almas vira traque de massa.
Pra isolar a praça e evitar a aglomeração de pessoas em torno dela, diversas ruas que a circundam foram fechadas, nos fazendo ter que dar uma enorme volta por aquele cenário de guerra, fugindo das bombas e tendo como trilha sonora o som incessante das sirenes das ambulâncias. Mischael também diria no dia seguinte que a quantidade de atendimento médico naquele dia é maior que a somatória de atendimentos durante todo o ano.
Corremos para nos proteger. Faltavam vinte minutos para a virada do ano e não queríamos passar no centro do front. Depois de muita correria, encontramos um café, com vista pra praça e protegido por um vidro. Brindamos o ano novo ali, vimos os fogos da prefeitura, que em nada se diferenciavam dos fogos dos cidadãos, e decidimos voltar pro hotel. Nos preparamos pra sair do café e entrar correndo na estação de metrô e poucos passos depois um cara embriagado jogou uma bomba bem na frente de Cris, que conseguiu desviar. Eu não consegui evitar:
– Idiota – disse, com raiva.
Cris me puxou, alegando que “idiota” é entendido em praticamente todas as línguas.

Já dentro do metrô, apesar do trem lotado, ficamos mais aliviados, apenas torcendo para que nenhuma bomba explodisse. Nossa estação era uma das ultimas e fomos acompanhando o esvaziamento dos vagões. Sobrou um casal bem na nossa frente. Ele loirão, ela mulata.
– Vocês são brasileiros? – perguntou ela.
– Somos – respondemos juntos, sorridentes.
– De onde?
– Salvador – respondemos juntos, de novo.
– De Salvador??!! Ai, meu Deus, não acredito…
O loirão riu.
– Eu sou de Salvador também e blá, blá, blá… disse ela, entusiasmada.
Se chamava Angélica, morava na Alemanha desde 2000, tinha um exagerado sotaque de personagem baiano de novela e tinha um filho alemão chamado Salvador.
– Salvador? – perguntamos juntos, de novo.
– Amo aquela terra, foi uma forma de homenageá-la e manter o vínculo – explicou Angélica. – Morro de saudades do sol, do acarajé… – continuou.
Eles foram embora antes da gente. Nos despedimos e já do lado de fora do vagão, com a porta fechando e o trem partindo, ela gritou:
– Mande um beijo pra Ivete.

Ficamos praticamente sozinhos no trem. Um pouco distante, apenas uma outra senhora. A estação dela era uma antes da nossa e ao passar pela gente, ela perguntou:
– Vocês são brasileiros?
– Somos – dissemos juntos, sorridentes.
– Feliz ano novo – disse ela.
– Pra você também.

No hotel, ligamos a TV e ficamos vendo a praça onde estávamos, com os fogos pipocando por todos os lados. Mudei o canal e achei imagens do reveillon em diversas partes do mundo. Mudei de novo e fiquei assistindo o fim do ano na Palestina, onde israelenses jogavam bombas indiscriminadamente. Feliz ano novo.

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(1) Jesus, etc., de Jeff Tweedy e Jay Bennett.

Domingo, Setembro 06, 2009

Nessa cidade todo mundo é doidão¹

Enquanto Woody tocava sua clarineta, eu me espremia entre a última cama do beliche de três andares e o teto do vagão que nos levaria de volta para a Alemanha.
O casamento de Lu seria no dia 22 de dezembro. Passaríamos o Natal também na casa dela e depois faríamos uma viagem de carro para Amsterdã e Bruxelas.

Quando estávamos planejando a viagem, eu sugeri Amsterdã, mas Cris não queria de jeito nenhum, pois não queria repetir nenhum lugar da primeira viagem que fizemos à Europa, anos atrás. A convenci dizendo que seria importante a gente rever alguma cidade até pra ter uma ligação entre as duas viagens:
– Temos que repetir, é o elo com a outra viagem... – disse eu, a convencendo.

Foram horas de estrada, errando o caminho e pegando o retorno, errando o caminho e pegando o retorno, errando o caminho e pagando o retorno até conseguir chegar em Amsterdã. Apesar de já passar das 22 horas e dos graus negativos, fomos dar uma volta pela cidade. Deixamos o carro no hotel e dentro do ônibus encontramos duas brasileiras que moravam lá desde 2001. Seguravam uns papéis. Descemos no mesmo ponto e perguntei:
– Como chego na Red Light District?
Red Light é o local da boemia da cidade. É onde estão os bares, as prostituas nas vitrines e os coffeeshops. Explicaram o caminho e depois nos deram alguns dos papéis que seguravam. Era um jornal de alguma igreja, tendo na sua manchete principal o título “saia do caminho errado e venha para o caminho de Jesus”.

– Vamos procurar um coffeeshop? – sugeri, ao vento, lançando a isca para irmos pro caminho legal.
– Já começou?! Ninguém aqui quer coffeeshop, não... – repeliu Cris, defendendo as maiorias(?).

Viajávamos com um casal de soteropolitanos que conhecemos na casa de Lu. Ele nunca tinha experimentado. Disse que até tinha muitos amigos canabistas, mas que sempre recusou.
– Se a gente achar o coffeeshop do The Doors, vocês vão se amarrar. A gente esteve lá quando estivemos aqui na nossa primeira viagem. Vocês podem tomar um chocolate quente ou um delicioso café...... – comecei o discurso, pregando o caminho de Jah.
E consegui.

Seria muito difícil lembrar onde ficava o do Doors e entramos no primeiro que encontramos. Só em adentrar o recinto você já é consumidor. A névoa é tão intensa quanto a do lado de fora.

No dia seguinte, o roteiro inicial que seria ir ao Museu de Cera, depois andar pela cidade até o Museu de Van Gogh, depois andar pela cidade até um restaurante e depois andar pela cidade até o Museu de Anne Frank mudou para: ir ao coffeeshop, andar pela cidade até o Museu de Cera, depois andar pela cidade até o Museu de Van Gogh, ir em outro coffeeshop, andar pela cidade até um restaurante e depois andar pela cidade até o Museu de Anne Frank. E, se desse, ir em um coffeeshop antes de dormir, o que acabou acontecendo.

Em Amsterdã, pelas suas casas iguais, de cores iguais, de tamanhos iguais, com seus quarteirões iguais, quando você sai de algum lugar, não consegue discernir de onde você vinha e pra que lado estava indo. Perdíamos muito tempo discutindo a direção certa e algumas vezes tivemos de voltar tudo, depois de andar por quinze minutos para só então perceber que estávamos indo pro lado errado. Num desses erros, já voltando pro hotel, me empolguei ao ver o letreiro:
– Porra, o coffeeshop do The Doors!
– Nem pense – disse Cris, no ato.
– Oxe, e o elo?

O lugar continuava igualzinho. O pôster com o rosto de um índio, que serviu de fundo para a foto que tiramos na nossa primeira vez ali, continuava no mesmo lugar.
– Vamos tirar uma foto igual... é o elo.
Cris nem discutia mais. Já estava resignada. Nos posicionamos e demos a maquina para Marcos, nosso companheiro de viagem, fazer a foto.
– Sorriam – disse ele.
Sorrimos e enquanto esperávamos o flash, me lembrei de algo muito importante:
– Péra, você não pode ser o fotógrafo.
– Hein?!
– Quem bateu a foto naquela viagem foi o dono do estabelecimento, tem que ser ele...
Cris se revoltou, disse que não ia tirar mais foto nenhuma, que aquilo já era demais, que o elo era a putaquepariu...
Enquanto ela falava, eu já estava conversando com o dono do coffeeshop, que através de uma singela névoa, olhou pra mim atentamente e disse:
– Impossível eu lembrar de um cliente depois de cinco anos.

Enquanto ele nos enquadrava, eu disse pra Cris:
– Meu amor, você não está percebendo a magia do elo?
Smiles – pediu o nosso fotógrafo.
FLASH.

Quando ele nos devolveu a câmera, lembrei que da outra vez eu tinha pedido a ele uma música do Doors, só pra ganhar moral, pois na verdade eu queria ouvir Beatles:
– Você poderia colocar Love her madly²?
– Yeah – disse ele, empolgado com minha escolha.
– E se der, depois você pode colocar alguma dos Beatles?
Com menos entusiasmo ele disse que sim. Colocou Hey Jude³.

TIve de fazer o mesmo dessa vez. Pedi uma do Doors para depois pedi uma dos Beatles. Não sei o porquê, mas ele colocou uma do Doors e duas dos Beatles
– É o elo – disse Marcos, na vibe.

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(1) Adaptação de É'DOxum, de Gerônimo.
(2) De Robby Krieger.
(3) De Lennon e McCartney.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Woodys, Fagundes, Praga

Na Alemanha, a maioria fala inglês, mas em Praga, só os mais jovens, e ainda assim, a minoria deles. Depois de seis horas de trem, chegamos na capital da República Tcheca.
– Táxi, táxi – repetia um senhor de 50 e poucos anos, bem gordo e com uma frondosa barba.
No mapa que tínhamos de Praga, o setor “Praga 4”, que era onde ficava o nosso hotel, não aparecia. Era um mapa ruim, que só mostrava o centro.
Num inglês mais duro que o de Joel Santana, o senhor do táxi dizia que esse local era muito longe, que não tinha metrô até lá e que o táxi iria custar 800 “pragos”.
(Por não sabermos o nome da moeda local, a apelidamos de “prago”).
Cris fez as contas rapidamente:
– Oxe, 60 dólares? Nem a pau.
Ficamos perdidos na estação de Praga, tentando encontrar alguém que falasse inglês e que soubesse como chegar em “Praga 4”. Nas duas cabines de turismo, com o I universal de informação, ninguém falava inglês e ninguém estava de bom humor pra tentar entender nem tentar ser entendido. Um fechou o vidrinho na cara de Cris.

Atento às nossas dificuldades, o barbudo-gordo-mercenário se aproximou de novo dizendo “táxi, táxi, 700 pragos”. Ignoramos e continuamos procurando alguém que pudesse nos ajudar. Depois de quase uma hora, já entrando em desespero, encontramos um jovem casal que falava inglês. Disseram que teríamos de pegar um metrô até uma tal estação e de lá um ônibus que nos deixaria na porta do nosso hotel, mas que com a neve, o frio e àquela hora da noite, era melhor irmos de táxi.
– Quanto custa mais ou menos um táxi daqui pra lá? – perguntei.
– Quanto estão te cobrando?
– 800 pragos.
– OITOCENTOS?! – gritaram ele e a namorada, ao mesmo tempo, nos advertindo que estava muito caro: – O preço deveria ser uns 300 – disse ela.
Agradecemos e voltamos pra tentar o táxi com outra pessoa. O gordo tinha sumido.
– Até esse local são 15 km. Quinze quilômetros, quinze euros – disse um taxista, bem mais modesto. Começamos a negociar até que o gordo apareceu de surpresa, brigando com o motorista de táxi, mostrando que o negócio ali tem que passar por ele. Eu fiquei tranquilo, estava com Cris:
– Ele fez por 15 euros – disse ela.
– No, no, no... 700 pragos – respondeu ele.
– Então, tchau – disse ela.
Sem nenhum escrúpulo, ele humilhou Insinuante, Casas Bahia e Ricardo Eletro. Fez um desconto de 40%.
– Vinte e cinco dólares – disse.
– Vinte – disse Cris.
– Vinte e quatro.
– Vinte.
– Vinte e três.
– Vinte.
– Vinte e dois.
– Bora, meu amor, vinte e dois tá bom – disse eu.
– Vinte – disse Cris.
– Vinte e um – disse ele.
– Perfeito, vamos logo embora daqui.
– Vinte – repetiu Cris.
– Vinte e um – repetiu o cara.
Cris se virou pra sair e ele finalmente aceitou:
– Ok, vinte. Kjhugratz wladkafka – disse para si mesmo.
– Deve ter xingado você toda – falei, na frente dele.
– Ele que se foda – disse ela, também na frente dele.

Chegamos no hotel e ficamos perplexos com a qualidade. Aparência de cinco estrelas pelo preço de um albergue. Já sabíamos que Praga era um dos locais mais baratos da Europa, mas não tanto. Tinha uma piscina aquecida de 25 metros e por causa dela entendemos o preço tão baixo do hotel.
– Vou nadar – disse eu, feliz da vida com a oportunidade.
Uns vão à igreja, outros à sinagoga, outros à mesquita, outros à Meca, outros ao centro espírita e outros tomam chá da União do Vegetal... Eu vou à piscina e, regularmente, ao mar.

Uma vez fui tomar o chá da União do Vegetal. Uns amigos estavam tomando e falavam fascinados das maravilhas do chá.
– Você descobre coisas do fundo da sua mente e do fundo da sua alma – disse um.
– Eu conversei com meu cachorro, Bob... Não o via desde 98 – disse outro.
Sting, em sua biografia, disse que enquanto esteve sobre o efeito do chá, sua memória chegou até o útero da mãe.
Me levaram no ritual. Antes de começar, o “chefe” falou sobre a origem do chá, explicando como ele nasceu e como se propagou por diversas partes do mundo.
– Se ligue que é muito normal na primeira vez vomitar – me advertiram.
Eu não ligo pra vômitos, inclusive quando estou me sentindo mal faço tudo pra vomitar logo.
Tomei o copo de chá de vez (como me aconselharam) e fui me sentar nas cadeiras disponibilizadas espalhadas pelo salão do sítio. As cadeiras até eram largas e com encosto até a cabeça, porém, depois de 10 minutos, se tornaram extremamente desconfortáveis. Os freqüentadores mais experientes levam um travisseirinho pra ficarem mais à vontade. Fechei o olho e comecei a pensar... Pensei em diversas coisas: começou com a banda que eu tinha e que tinha acabado de se dissolver, o porquê daquilo, o porquê daquilo outro, e as respostas se esmiuçavam em uma série de outros questionamentos e respostas e questionamentos e respostas e questionamentos e respostas até que me levantei pra vomitar.
Foi uma das vomitadas mais fantásticas de minha vida. Apesar de ter tomado um copo de 300 ml, pareceu que vomitei um litro. Pra vomitar você se levanta e vai até o jardim, onde, provavelmente, você vai se encontrar com outros diversos vomitadores.
Na volta, quando me sentei, a primeira coisa que pensei foi o quanto seria gostoso estar com um travesseiro ali e vislumbrei deitar no chão, pois acredito que estaria mais confortável que a cadeira. Procurei algum olhar aberto perto de mim e achei o de uma menina que aparentava ter 25 anos.
– Será que eu posso deitar no chão? – perguntei, cochichando.
Ela pensou um pouco e disse:
– Eu acho que não – também cochichando.
Consenti e me resignei. Fechei o olho de novo e instantaneamente voltei à meditação.
Família, amigos, trabalho, relacionamentos, escolhas, atitudes, questionamentos e respostas e outra vomitada.
Depois de um tempo que não sei precisar, o “chefe” dá um sinal e todos “acordam”. Aos poucos, as conversas vão aparecendo.
– Eu tive uma viagem muito louca, conversei com muitas pessoas, senti uma coisa muito intensa – dizia entusiasmada a menina que havia me dito que eu não podia deitar no chão. – E com você aconteceu o quê? – me perguntou ela.
Não soube dizer a ela o que senti e respondi que não senti nada demais.
O que senti na verdade foi “apenas” um forte poder de concentração, de conseguir entrar em transe com enorme facilidade. Sem querer desmerecer o chá e seus adeptos, mas eu sinto a mesma coisa quando estou nadando. Até mais forte.
Comecei a explicar que não tive nenhuma alucinação, que não vi nem conversei com nada, que apenas fiquei concentrado mais do que o normal, quando ela me interrompeu:
– Oxe... você tava doidão querendo deitar no chão...

Em Praga, não perderia a oportunidade. Botei minha sunga (a do hotel de Itapuã) e desci para nadar.
– 200 pragos uma hora – disse a recepcionista da piscina.
– Hein?
– Para usar a piscina, tem de pagar 200 pragos por uma hora.
Tudo no hotel era pago. A diária só incluía o quarto e o uso do elevador.
Eu não tinha óculos pra nadar e a piscina tinha 10 vezes mais cloro do que o normal. Pelo preço, Cris me obrigou a ficar os 60 minutos nadando. Ficou de vigia na borda da piscina, sem deixar eu sair, mais exigente que um treinador, fazendo meu olho arder a noite toda.

Pelas ruas de Praga, avistei um cartaz com o cineasta Woody Allen. Era o cartaz do show da banda de jazz dele, que aconteceria no dia seguinte, exatamente na hora que o nosso trem partiria de volta pra Alemanha, pra cidade de Korchenbroich, onde ficaríamos hospedados na casa de Lu, amiga de Cris.
– Vamos adiar a passagem.
– É o quê?
– É só um dia.
– Nem invente.
– Uma dia só...
– Não...
– É um show da banda de Woody Allen. Vamos ver Woody!
– E eu lá quero ver Woody? Eu quero ver Lu.
– Mas a gente vai ver Lu... É só um dia a menos...
– Não...
– Woody Allen...
– Não...
– Quando a gente for pra Amsterdã prometo que não vou ficar entrando nos coffeeshops...
– Não.
Depois de muito tempo, Cris cedeu, porém, com a ressalva de que o ingresso teria de ser bem barato.
No cartaz não tinha o preço, só o site da produção. Entramos em um cybercafé e mantivemos o roteiro da viagem. Cada ingresso sairia por volta de 500 reais.

No dia seguinte, andei por toda a cidade procurando Woody Allen. Acreditava que ele, por estar em uma cidade como Praga, manteria o seu costume e estaria andando pelas ruas, buscando idéias e experiências, fazendo hora pra passagem de som... Comecei a acreditar que eu tinha reais chances de encontrar com ele, que o destino faria esse encontro no meio de Praga... “Praga é pequena”, pensava eu.
Fomos em vários pontos turísticos, na ponte de Charles, onde uma banda tocava jazz, na praça central, onde uma banda tocava jazz... Fomos no museu de Kafka e depois na casa onde ele morou:
“É lá que Woody vai estar”, pensei, acreditando na ironia do destino.
– Seria interessante encontrar Woody Allen na casa de Kafka – comentei com Cris, no caminho.
– Se isso acontecer, o que você vai dizer pra ele?
– Hi, Woody.
Cris apenas balançou a cabeça. Eu continuei:
– Ele vai responder “Hi”, vai sorrir e acenar pra mim.
– E você?
– Eu vou retribuir e mentir dizendo “vejo você mais tarde no show”. Ele vai dizer “yeah” e vai sorrir.
– E você?
– Aí eu vou perguntar se ele tem dois ingressos sobrando prum casal amigo nosso...

Rodamos todo o centro turístico por horas mas não o encontramos. Paramos pra comer e, enquanto analisávamos o cardápio, um casal de brasileiros reconheceu nosso português. Ficamos conversando e o cara disse com uma enorme empolgação:
– Porra, Praga é foda, o mundo todo tá aqui, você não vai acreditar quem eu encontrei agorinha ali?
Eu e Cris nos olhamos.
– Woody Allen? – perguntei, com a boca cheia de pizza.
– Não... Antonio Fagundes.

Cris teve que dar fortes tapas nas minhas costas pra eu desengasgar. A força do tapa tinha de atravessar as duas camisas e os três casacos que eu vestia. O pior foi que depois disso, involuntariamente, eu passei a andar por Praga procurando por Woody Allen e por Antonio Fagundes.
– E se você encontrar com Antonio Fagundes vai dizer o que pra ele? – perguntou Cris.
– Grande Felipão, e aí, beleza?
– Felipão?! Por que Felipão? Dizem que ele parece com Felipão da seleção, é?
– Não, é Felipe Barreto, o cara que pegava todas em O Dono do Mundo. Pegou Malu Mader ainda virgem, antes do marido, logo depois do casamento dela.
Imaginei a chance de encontrar os dois ao mesmo tempo:
– E aí, Woody, beleza? Esse aqui é Fagundes, um ator brasileiro...
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Quinta-feira, Agosto 13, 2009

A língua é minha pátria¹

Renan Calheiros, que foi ministro do Governo FHC e sempre foi amigo de Collor desde o tempo que Collor dizia que Sarney era o pior presidente da história deste país, discutiu verbalmente com seu companheiro Tasso Jereissati. Os jornais falaram em baixaria:
– Abaixe esse dedo sujo – disse um.
– Sujo é o de Vossa Excelência – respondeu outro.
Achei uma viadagem. Chama o cara de sujo pra depois chamar de excelência. Tinha de ser:
– Sujo é o dedo da puta que te pariu, seu viado.
Mas é tudo na base da vaselina. Tudo rabo preso. É preciso decifrar a filosofia dos discursos dos políticos:
“Olhe Senador você me respeite” significa “se ligue, seu filha da puta que se você falar alguma coisa eu digo tudo sobre as usinas lá de Alagoas”.
“Vossa excelência não tem moral nenhuma” quer dizer “vai se fuder, seu merda, sei tudo sobre seus canais de televisão lá no Ceará”.
“Eu não tenho nada a ver com isso” é exatamente “se os brasileiros estão sendo assaltados e assassinados nos engarrafamentos, que se danem, eu tenho meu jatinho e ele é meu, só meu”.
E são deles também o poder de decidir os planos de educação, de segurança, de aceleração do crescimento, quanto vão ganhar, quem vão contratar, se vai ser a empresa do cunhado, o namorado da neta ou a filha do ex presidente.

Renan Calheiros era do bem no Governo FHC e no Governo Lula ele é do mal ou ele sempre foi um brasileiro deplorável?

Um outro de Brasília foi mais poético ao dizer que tudo aquilo contra o que sempre lutam é exatamente tudo aquilo que eles são².

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Duas semanas depois do casamento, enfim, iríamos para a lua-de-mel. O vôo Salvador-Frankfurt pela empresa alemã Condor estava lotado. Cris loira e eu tostado pelo calor infernal do verão de Salvador éramos o inverso no saguão do aeroporto, onde loiros alemães e mulatas brasileiras dominavam a fila. O vôo sairia às 18h. Fiquei vendo o avião da Condor no pátio e achei ele meio antigo, meio anos 80. Asa reta, sem aquela viradinha na ponta. Às 17h 50, ainda estávamos no saguão. Vôo atrasado. A mãe de Cris ligou pra ela.
– O que foi que ela queria? – perguntei.
– Nada demais, besteira... – respondeu, sem querer me dar atenção.
– O que foi que ela queria? Eu ouvi você consolando ela, dizendo “ô, mãe, fique assim, não...” – insisti.
– É que ela tava chorando…
– Chorando?!
– Foi, mas calma, não é nada demais...
– Nada demais?! Eu que não entro nesse avião...
– Ai, meu Deus... Ela estava chorando porque já estava com saudade, porque vou passar vinte dias fora, porque não vamos nos ver no natal…
– Não entro nesse avião nem a pau...
A mãe de Cris é do ramo da física quântica, da astrologia, do espiritismo... Não entraria naquele avião nem com a porra.
A caixa de som do saguão nos interrompeu. A língua era a alemã:
– Kxjghtientein harkstridvertz ratztrosten…
Todos ficaram em silêncio. O cara continuou:
– Khsenns wiltzman stockhakstratz...
E todos os loiros comemoraram:
– Yeaaaaaahkstreintz.
Eu e Cris ficamos esperando a tradução, mas o cara só falou em alemão. Me aproximei e entre as dezenas de pessoas que buscavam informações em torno dele, falei, um tanto irritado:
– E em português, amigão?
Ele fez uma cara de “ops, me esqueci” e antes de ele falar, uma passageira brasileira que falava alemão se antecipou e me disse que por causa de um defeito na aeronave, o vôo havia só sairia no dia seguinte.
– Os alemães são super-rigorosos nessas coisas – completou a brasileira.
– Fique tranqüilo. Vamos colocar vocês em um hotel muito bom – disse o comissário.
– PUTAQUEPARIU – disse Cris, depois de me ouvir dar a notícia.
– Fiquem tranqüilos, vocês vão ficar num hotel muito bom – repetiu o comissário pra ela.
Porra de hotel muito bom. Eu queria tá no frio gostoso. Inclusive decidimos pelo tíquete do táxi e ir dormir em casa mesmo.
– Rapaz, o hotel é um cinco estrelas novinho em folha, de frente pra praia de Stella Mares...
Porra de praia de Stella Mares. Eu queria a neve de Munique.

Com a razão voltando, pensamos na logística e nos rendemos ao hotel.
Tínhamos calças, luvas, casacos, ceroulas, gorros e meias na mala e o nosso primeiro dia de lua-de-mel foi em Itapuã, no sol que arde até a alma, no hotel cinco estrelas disponibilizado pela companhia aérea. Ás oito horas da manhã, fomos acordados por uma equipe de professores de dança nos convocando para uma aula de swing baiano que já iria começar na piscina.

De tarde, no aeroporto, apesar da mesma aparência anos 80, me garantiram que o avião era outro. Inclusive, que o motivo das 24 horas de espera foi justamente porque tiveram de mandar outro avião de lá. A mãe de Cris ligou momentos antes, mas foi apenas para desejar boa viagem.

Apesar de gostar da língua alemã, assim que chegamos em Munique tomamos um susto. De noite, andando pelas calçadas, arrastando nossas malas, tentando encontrar o endereço do nosso hotel, atravessamos uma rua e fomos surpreendidos por uma voz onipresente:
– Blitzrieg bop…
Paramos no meio da rua, olhamos pra trás e vimos dois policiais dentro de uma viatura, olhando pra gente.
– É com a gente – disse Cris.
– Hein?
– Kxjghtientein harkstridvertz… – repetiu a voz, ainda com mais ênfase.

Além de ser nossa primeira vez em solo alemão, eram também as primeiras horas e ter um fardado falando alemão de forma um tanto ameaçadora, naquele cenário, fez passar várias cenas de filmes da Segunda Guerra pela minha cabeça.

Gaguejei, mas consegui perguntar se falavam inglês. O do volante nos olhou de cima a baixo e respondeu, educadamente, que ali era proibido atravessar, que deveríamos ter mais cuidado e procurado uma faixa de pedestres, mas que poderíamos seguir.

Entramos em um ônibus. Cris foi na frente, passando pela catraca e avisando ao cobrador-motorista que eu estava com os bilhetes. Entreguei os bilhetes, ele leu, devolveu e de muito mau humor falou alguma coisa que deve ter sido “porra, caralho, tá atrasando meu serviço, esse bilhete é pra outro ônibus, caceta... que merda...”.
A língua francesa quando falada de forma suave soa ainda mais confortável do que já é; a língua alemã quando falada de forma mais áspera soa ainda mais assustadora do que já é. Enquanto Cris descia assustada do ônibus, respirei fundo, olhei pro motorista e resolvi usar o poder da língua portuguesa, acreditando que quando ela é falada de forma natural, ela soa ainda mais poderosa do que já é:
– Vá tomar no meio do seu cu, seu alemão viadinho – disse eu.
O poder disso é imenso.
– Ktstrats grtszvotrzein kzgasjkzrin – respondeu ele.
– Vai se fuder, seu otário...
– Hrtztotzen gestaptzo hkmntzsghzy...
– Vá...
Uma baixaria da porra.
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(1)Língua, de Caetano Veloso.
(2)Marcianos invadem a terra, de Renato Russo.

Sexta-feira, Julho 31, 2009

Smells like a teen spirit¹

No meu livro, no último texto, conto a história do meu então novo vizinho. Ele passava as tardes tocando guitarra, justamente enquanto eu escrevia o livro, em meados de 2007. Muitos textos foram escritos ouvindo suas improvisações. Eu imaginava se tratar de um adolescente de 14 anos, mas fui conhecê-lo e era um cara de 36, que tinha largado o emprego de muitos anos como administrador de empresas pelo velho sonho do rock.
– Larguei tudo. Vou voltar a me dedicar a guitarra – disse entusiasmado, em meio a uma enorme pedaleira, amplificadores e emaranhados de cabos do seu micro estúdio caseiro.
Pensei se tratar de um adolescente não pela técnica e sim pela energia do som que saía da guitarra. Todas as tardes, sem exceção, ele tocava. Ouvi muita coisa interessante.

Minha bateria ficava exatamente no andar de cima e naquele momento estava desmontada e nem essa conversa nem outras que surgiriam depois me animaram a montá-la.
Como toda conversa entre músicos, essa acabou com a clássica frase “vamos marcar de fazer um som”.

Lembro que quando era adolescente eu ensaiava até no horário da manhã. Das nove ao meio-dia. De tarde ia pra escola. Mas agora, nos 30, com todo mundo cheio de compromisso, os ensaios só podem ser no horário da noite. Eu não tinha a menor vontade de sair da minha cama, no meu início de sono gostoso, às 21h, pra ir a um estúdio ensaiar até meia noite. Fazer shows já sabendo que só começariam de madrugada, para mim, era uma verdadeira via crucis, carregando a bateria pra lá e pra cá. Bumbo, caixa, tom, surdo, pedal, pratos, baquetas, ferragens, a putaquepariu... É por essas e outras que o rock cheira à espírito adolescente¹.

Larguei todas as bandas que tinha. Até a de cover dos Beatles, mesmo a banda só tocando a cada seis meses em um encontro de beatlemaníacos.
Conversei com tudo mundo e disse “chega de rock”.

Duas semanas depois desse grito de independência, encontrei Renezão, um cara com quem eu já toquei infinitas vezes.
– Vamos fazer um show com a gente? Pedrão não vai poder fazer... – pediu ele.
– Bora – disse eu, no automático, arrependido no segundo seguinte.
– Na verdade são quatro shows, só os clássicos dos Beatles, Bob Dylan, Rolling Stones, Janis Joplin... – detalhou ele, piorando tudo.
Enquanto ele falava fui me lembrando de todos os caminhos, de todas as fumaças de cigarro impregnadas na roupa, o som ruim, o leva e traz da bateria, os calos nos dedos pela falta de prática, os horários, os desentendimentos, as decepções e, corajosamente, enquanto ele falava as músicas de Neil Young que estariam no repertório, eu disse:
– Porra, man... na verdade... quero tocar não.
– Hein?
– Vou tocar não.
– Não? – perguntou Renezão, surpreso.
– Não – afirmei.
– Como assim? Por que isso?
Disse a ele que não era nada pessoal e expliquei o motivo.
– Eu não aguento mais o rock, Renezão, enchi o saco – disse pra ele, concluindo meu pensamento.
Ele respondeu:
– Porra, eu já tinha desistido do rock desde 2004, mas dois anos atrás um imbecil me colocou a pilha dizendo que eu era músico, que eu não devia tá trabalhando com nada a não ser com a música e blá, blá, blá...
Respondi que continuava achando aquilo tudo dele.

Eu nunca tinha negado antes e foi uma das melhores sensações que tive. Depois desse dia saí dizendo “não” que foi uma beleza. Estava livre.

– Você tá escrevendo um livro? – perguntou meu vizinho, ainda no nosso primeiro encontro.
– Pois é...
– Porra, que massa, não conheço ninguém que escreveu um livro... Livro de quê?
– Ah, um monte de coisa...
– Mas o quê, assim? Qual é a história?
– Rapaz.... É um monte de história...
– Sei... Mas qual é a idéia principal? – insistiu ele, querendo entender.
Descobri nessa sabatina que nem eu sabia qual era a idéia do livro. Se é que ele tinha alguma idéia.
– Todo livro conta uma história... O seu conta o quê? Diz o quê? – perguntou ele.
Fui obrigado a ficar em silêncio, pensando. Ele percebeu que eu estava buscando alguma resposta e respeitou meu silêncio, ansioso pela resposta. Após um tempo pensando, cheguei a uma conclusão que me pareceu sincera naquele momento e disse a ele que o livro contava muitas histórias, mas, sobretudo, de como me livrei do rock.

Seis meses depois eu lancei o livro onde no último texto está a crônica desse encontro com meu vizinho – sem narrar essa conversa. Duas semanas depois do lançamento eu e Cris recebemos uns convidados em casa. No meio da noite fui com um amigo na garagem pegar alguma coisa no carro quando encontramos com meu vizinho-guitarrista arrumando o seu carro, colocando malas e mochilas dentro.
– Faustão?!
– Genésio?!
– Vocês se conhecem?! – perguntei.
– Porra, esse aqui é meu brother, grande guitarrista – disse Faustão.
Me lembrei do livro:
– Porra, ele que é o cara do último texto do livro – disse eu pra Faustão.
– O vizinho guitarrista?! – perguntou Faustão, entusiasmado.
– Que livro? – perguntou Genésio.
Displicente que sou, não tinha lhe oferecido ainda uma cópia. Como tinha algumas no carro, consertei o erro.
– Ah, é aquele livro que você disse que estava escrevendo? – relembrou.
– Isso.
– E que texto é esse?
Ele leu o texto atentamente. Começou motivado, mas foi perdendo o entusiasmo nitidamente a cada linha que lia. Quando terminou, fechou o livro e disse meio cansado:
– Legal...
Ficou um breve silêncio e ele emendou:
– Estou indo morar no interior.
– É mesmo?! Vai fazer um som? – perguntei.
Ele ficou um tempo em silêncio.
– Não... Recebi uma proposta de trabalho.
Outro breve silêncio.
– Tô justamente indo agorinha, nesse exato minuto. Acabei de arrumar o carro. Vou pegar a estrada agora de noite.
– É mesmo?! – perguntei, tentando calcular a ironia no destino.
– É... – disse ele.
Depois de mais um silêncio nos despedimos, um desejando boa sorte ao outro.

Me mudei faz um ano e assim que cheguei descobri que o vizinho de cima toca piano. Toda noite ele toca. Um dia vou lá ver qual é a dele.

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(1) Smells like a teen spirit, de Kurt Cobain.